domingo, 28 de setembro de 2008

O Sopro da vida

Obituário
Aos 50 anos, morre regente Tina Pereira, da Pro Arte

Plantão Publicada em 24/09/2008 às 15h14m O Globo online
Antônio Carlos Miguel

RIO - Regente da Orquestra de Sopros Pro Arte, que, ultimamente, vinha apresentando um tributo a Egberto Gismonti, a musicista Tina Pereira morreu na manhã desta quarta-feira, em São José de Campos (SP), onde estava internada. Após estrear no Rio, na semana passada, e com um novo concerto em homenagem a Gismonti agendado para este sábado, dia 27, na Sala Baden Powell, a regente viajara para a cidade de Mirantão, em São Paulo, onde sofreu um aneurisma. Transferida para um hospital de sua cidade natal, São José dos Campos, onde seria operada, Tina, de 50 anos, não resistiu. Seu corpo será enterrado nesta quarta-feira em São José dos Campos. Formada em Educação de Música e Dança pelo Instituto Orff da Escola Superior de Música e Artes Dramáticas "Mozarteum", em Salzburg, Áustria, Tina estudou flauta com Lenir Siqueira, Carlos Ratto e Carlos Alberto Rodrigues. Integrou o duo de flauta e piano com o pianista e compositor Caio Senna, quando se dedicaram à pesquisa e execução de repertório contemporâneo para esta formação. Atuava como professora da Escola de Música Villa-Lobos, da UniverCidade, do projeto de formação musical Villa-Lobinhos, regente do Coral Infantil da Escola Sá Pereira e diretora musical da Orquestra de Sopros da Pro Arte.

O Sopro da vida
Não tem ainda sete dias que Tina morreu, mas rezo aqui minha própria missa: Tina era minha fada madrinha. Não fui batizada ao nascer e nos adotamos mútua e carinhosamente como fada madrinha e fada afilhada – fadrinha e fadaafi, para encurtar. Tinha outra fada afilhada, a Lulu.

Grande musicista e maestrina, Tina fez fluir o sopro da vida através das muitas flautas que colocou em mãos miúdas e mentes férteis. Hoje, grande parte de seus alunos propagam esse legado sendo também professores e músicos.

Tina gostava de natureza, tinha o dedo-verde, suas plantas eram as mais lindas e bem cuidadas. No natal, serviam de árvore um manjericão e uma romã, muito floridos, em anos diferentes, claro. Também gostava de poesia, de banho de rio, de prosecco e dos produtos da l´Occitane. Era uma exímia bordadeira. Organizou, com a amiga Tetê Amarante, uma cooperativa de bordadeiras em Lídice. Traziam ocasionalmente as peças bordadas para serem vendidas no Rio. Tinha pena de vender as mais criativas e “perturbadas”, então ela as comprava para si mesma, ou para dar de presente (sorte minha!). Tinha a voz doce e rouca e uma rara delicadeza, ria com facilidade.

Enfrentou com grande coragem e humildade os sobressaltos da doença e da morte do companheiro de muitos anos. Viúva, se permitiu amar de novo quando o amor lhe acenou com outra chance. Saiu à francesa, minha fada madrinha... saudades, Tinoca!

“Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós.
Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós”
Antoine de Saint-Exupéry

7 comentários:

Pedro disse...

Razão mesmo tem Lewis Black quando cita sua regra a respeito da saúde:

"The good die young, but pricks live forever".

.:.sweet n spicy.:. disse...

Meus sentimentos querida!

bia disse...

amiga,
muito legal sua homenagem blogueira. Através das suas palavras compreendi mais ainda a natureza da sua fada madrinha....muitas semelhanças com a sua.
Bjs

Naná disse...

Dri querida, um beijo com muito amor pra vc.

juliana disse...

Adri, querida.
Que linda homenagem.
Gosto de pensar Guimarães Rosa tem razão: "As pessoas não morrem, ficam encantadas". Beijos. JuSaad

Anônimo disse...

Dri, só pude ler hj o blog e fiquei bastante tocada com as suas palavras...lindo mesmo!
Um beijo,

Julinha

Adriana Pinheiro disse...

muito lindos e queridos vcs! :)obrigada pelo carinho. beijos