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domingo, 27 de março de 2011

Sobre Urano em Áries

Como primeiro signo do zodiaco, Áries representa o portal de entrada para os 12 signos, o fogo primal, o início dos inícios. É um signo espontâneo e impetuoso, cheio de coragem e vigor. Urano leva aproximadamente 84 anos para dar a volta em todo o zodíaco, tendo então estado em Áries, pela última vez, de 1927 à 1935. Em termos coletivos, a chegada do "despertador celestial" ao signo do fogo inicial pode causar muita instabilidade, terremotos, erupções vulcânicas, sendo que eu não descartaria a possibilidade de violência bélica à medida que em 2012 ele forma uma quadratura com Plutão em Capricórnio.

Urano é o planeta mais irreverente do sistema solar. Está pautado na lei da impermanência. Inesperado, precipitador de mudanças súbitas e de novidades, é o planeta que inverte padrões, sempre desafiando o status quo. Pode parecer um tanto abrupto em sua forma de impor primeiro a desordem e o caos, para poder então imprimir uma nova ordem. É um planeta de abertura às novas possibilidades. Sem compromisso com o acerto, Urano valoriza a experiência do desafio, e nos impele a sair da "zona de conforto" e buscar novas formas de agir. Em termos pessoais, quem tem planetas nos primeiros 10 graus de Áries, Libra, Câncer e Capricórnio está mais imediatamente pilhado por essa energia. Gradativamente, ao longo dos próximos 7 anos, todos com planetas nesses signos serão afetados.

Vamos ter que fazer difente. Mudar ou, ao menos, adotar uma postura mais irreverente e criativa diante da vida. Quanto mais estapafúrdia, excêntrica e inovadora for uma idéia, quanto mais inusitada uma situação, mais Urano nos apoiará na empreitada. Costumo usar a frase "salto de crescimento individual" ao ler trânsitos de Urano. É isso o que ele causa, um baita desconforto ante ao deconhecido, muita adrenalina, inquietação e excitabilidade para que se possa chegar ao despertar (ou insight) que leva ao salto radical. Sem garantias, sem saber ao certo onde se vai chegar... Capacidade de improviso, adaptabilidade e ousadia são ingredientes indispensáveis diante de tais desafios. O cara diz mais ou menos assim: "tava achando que já viveu tudo o que tinha pra viver? pois então, aí vai novidade, se vira aeeeeeeee!"


Canção Mínima
No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.

E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro, uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,

Entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta.

(Cecília Meireles)

sábado, 27 de novembro de 2010

Lágrimas para que?

Sou da teoria de que rir é o melhor remédio. Para quem não concorda, basta dar um google no nome do doutor indiano Madan Kataria, fundador do Clube do Riso, uma espécie de yoga calcada simplesmente no rir até gargalhar sem parar como forma de bem-estar e exercício.

No entanto, há fases e situações na vida em que choramos muito. Atendi, nas últimas semanas, duas pessoas, ambas com trânsitos de Netuno, que se queixaram do quanto estavam chorando ultimamente, às vezes até sem saber muito bem o motivo. Trânsitos de Netuno são mesmo sensibilizadores, podemos ter a impressão de estar sendo "engolidos pelas águas", e choramos mais que o que normalmente costumávamos chorar. Netuno atua como um dissolutor de bloqueios e defesas. Choramos antigas mágoas que nem sabíamos existir, choramos as dores do mundo, somos lavados. E a sensação é de tristeza, fragilidade e estranheza.

Lendo Mulheres que Correm com os Lobos, livro da autora junguiana Clarissa Pinkola Estés, deparei-me com um trecho maravilhoso sobre a função do choro no psiquismo. Daí resolvi transcrevê-lo (pág 499):
"As lágrimas, na mitologia, derretem o coração enregelado. Na história "A Criança de Pedra" do povo inuit, as lágrimas mornas de um menino fazem com que uma pedra fria se quebre, liberando um espírito protetor. Na história de "Mary Culhane", o demônio que se apoderou de Mary não pode entrar em nenhuma casa onde haja lágrimas derramadas com sinceridade pois essas ele considera "água benta". Desde o início da história, as lágrimas cumpriram três funções: chamaram os espíritos para o lado de quem chora, afastaram os que queriam abafar e amarrar a alma pura e curaram os males decorrentes dos pactos infelizes.
Há épocas na vida de uma mulher em que ela chora e não consegue parar de chorar, e mesmo que tenha o auxílio e o apoio dos seres amados, ainda assim ela chora. Algo nesse pranto mantém o predador afastado, mantém longe a vantagem ou o desejo mórbido que irá destruí-la. As lágrimas fazem parte do conserto de rasgos na psique pelos quais a energia vinha vindo vazando sem parar. A questão é séria mas o pior não ocorre - nossa luz não é roubada - porque as lágrimas nos tornam conscientes. Não há a menor chance de se voltar a adormecer quando se está chorando. O sono que nos chega nessas circunstâncias é apenas repouso para o corpo físico.
Às vezes a mulher diz: "não aguento mais chorar, estou cansada, quero parar com isso." No entanto é a sua alma que está gerando as lágrimas, e elas são a sua proteção. Por isso, ela precisa continuar até a hora que acabe essa necessidade."

O trecho descreve perfeitamente o descongelamento que ocorre na psique depois de um período de "adormecimento da alma", onde estivemos anestesiadas e desconectadas do feminino profundo, agindo como zumbis ou robôs. Na desconexão, queremos agradar, mesmo que isso esteja nos destruindo interiormente. O choro lava, limpa, descongela e acaba por reconectar a pessoa de volta ao seu caminho.

Ilustração de Jana Vulkovic - Crying Girl

segunda-feira, 29 de março de 2010

Trânsitos de Plutão, o poderoso

Chamamos de trânsitos de Plutão as períodos em que o nano-planeta lá confins da galáxia faz aspecto (um ângulo) com um planeta que temos na carta natal ou com um importante ângulo do mapa natal (ascendente, descendente, fundo do céu e meio do céu). Como o sujeito anda devagar, seus trânsitos são raros e únicos, e duram cerca de 3 ou 4 anos. Ainda bem que levam esse tempo todo acontecendo, pois as transformações realizadas são tão profunadas que não poderiam mesmo ser elaboradas por nós num período mais curto.

Plutão é Hades na mitologia grega, o senhor dos mortos e do mundo subterrâneo (leia-se senhor do inconsciente), um cara de decisões irrevogáveis, de quem ninguèm (nem Zeus) ousava discordar. Pouco saía do seu reino e, diferente dos demais deuses, que viviam se metendo em várias aventuras amorosas, Hades apaixonou-se uma única vez e abduziu sua amada Perséfone para viver com ele em seu sombrio reinado. Toda mitologia plutoniana está ligada ao processo de morte e renascimento.
Plutão gosta das profundezas, do que é denso e intenso, é um planeta sem olhos para o superficial. Suas transformações são profundas e têm o gosto da irrevocabilidade, de que nunca mais as coisas serão como antes. E não são mesmo. Somos revolvidos por dentro. Quando se fala do senhor da morte, logo pensamos em morte física: na nossa morte ou morte de um ente querido, mas quero ressaltar que, embora as mortes acima não estejam descartadas - nem em trânsitos de Plutão, nem nos de outros planetas - a morte descrita por Plutão é uma morte simbólica. A morte de uma fase, a morte de uma faceta da gente, da morte da inconsciência de determinados aspectos do eu.

O cunho psicológico de um trânsito dessa monta é um maior reconhecimento da nossa essência e de nosso todo para que vivamos mais de acordo com quem somos. Daí termos a impressão de que estamos diante de decisões e escolhas de extrema importância. Na maioria das vezes, a escolha se restringe apenas a simplesmente "fazermos bom grado aquilo que sabemos que temos que fazer", frase do eterno mestre C.G.Jung. Note que a escolha aqui é o estado de ânimo com que encaramos a inevitável batalha.

Trânsitos de Plutão exigem uma viagem aos quartos escuros da alma. Lá, junto com os ratos, medos e aspectos ocultos do eu, estão também nossos maiores tesouros. Não dá pra chegar aos tesouros sem encarar a sujeirada. Gosto da imagem do dragão que guarda o tesouro. O dragão pode ser uma renúncia, uma perda, uma traição, uma rejeição, uma dependêcia, e precisamos enfrentá-lo para poder então fazer o caminho de volta à vida. É sofrido, mas vale a pena. A recompensa é o desabrochar. Crescemos. Nos descobrimos mais fortes do que pensávamos ser, mais íntegros do que éramos e mais alinhados com nosso propósito de vida.

pintura de C.G. Jung, Shadow Cornered (Sombra Encurralada).