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domingo, 23 de outubro de 2011

Embalado individualmente

Como não sei para quem reclamar, desabafo aqui mesmo... à beira do caos ecológico e da entrada de Netuno em Peixes, me parece óbvio que deveríamos estar econômicos com as embalagens, especialmente as de plástico. Ao invés disso, tenho notado que agora tudo é embalado um a um... estamos gastando mais em embalagem. Na verdade, muito mais do que gastávamos há poucos anos. Não faz muito tempo, por exemplo, que os modess, absorventes higiênicos, vinham todos dentro de uma única caixa ou saco, dobrados ou retos, ali, juntinhos num grupinho. Agora vêm embalados um a um, noutro plastiquinho, tipo, cada um no seu. Por que?

Canudo, ketchup, maionese, guardanapo de papel, tudo agora é embalado individualmente, um a um, tudo tem capa! Não entendo! A gente não deveria estar economizando os recursos do planeta? ou esqueceram de avisar isso pro pessoal que é designer e marqueteiro das indústrias? De vez em quando me pergunto o que faz o marketing de uma empresa de cosméticos, por exemplo, não pensar em reciclagem, em sistemas de refil, onde o cliente paga só pelo produto, não pela embalagem, que ele, inclusive, já tem.

Comentei com uma amiga, ela disse: "Adriana, o povo tá pa-ra-nói-co com bactéria, repara só!" Ah, pensei, então é por isso que até o açúcar, agora, nos bares e cafés daqui, vem numa embalagem individual??? Jesus! Nunca ouvi dizer que alguém tenha morrido porque tomou café no bar tal com açúcar estragado... Nem acho que condimentos, como ketchup e maionese precisem ficar em saquinhos 'cada um na sua'. Basta o dono do estabelecimento comercial lavar os frascos e mantê-los limpos e frescos, ou tô louca?

Numa clínica de terapia ou salão de beleza, você sabia que é lei ter copos descartáveis? Pois é! Aqui no RJ, pelo menos, as leis estão burras assim! Super politicamente corretas com a vigilância sanitária. Copo de vidro em salão de beleza? Não pode! Quem foi o mentor dessa lei, gente? Quando a lei mudou? Será lei municipal, estadual ou federal? O que há de errado em LAVAR os copos de vidro? O que aconteceu com o velho e eficiente trio água- esponja-detergente? Se a paranóia é de doença e contágio, cada pessoa deveria então andar com seu próprio copinho!

Quando alguém me serve um cafézinho em copo de plástico ou isopor, cismo que a quentura do café fez derreter um pouco do plástico e que vou tomar café-com-plástico! Pode parecer loucura, mas isso sim: loucura - cada um com a sua. Essa é a minha, embalada individualmente. Não tomo nada quente dentro de copo de plástico. Tenho medo da química! Sempre que tenho opção, prefiro um copo de vidro, uma xicrinha...

Será que houve alguma epidemia secreta por causa de canudo com leptospirose? Canudos com camisinha fazem parte do 'choque de ordem' do atual prefeito??? Ainda mais cinicamente falando: que empresas estarão lucrando com o 'universo dos sachês & embalagens individuais'? Não vai adiantar nada ter muito dinheiro e tudo devidamente esterelizado e embalado se não tiver peixe no mar... Pelas barbas de Netuno!

Loucuras à parte, já parou pra pensar na quantidade de lixo formada apenas por copinhos de plástico, camisinhas de canudos e sachês de mostarda, ainda, mini plastiquinhos embaladores de modess, sacos de mercado e tralha e tal, pra onde vai tanto desperdício, minha gente???
Vai contaminar o solo e os oceanos... e a gente precisa deles pra viver, não precisa?

O que custa mais caro, educar uma criança ou arcar com um presidiário? Investir em embalagens eficientes e responsáveis ou em aterros sanitários? Perdoe a minha chatice, mas de vez em quando faço umas contas, assim, no pensamento, em pleno domingão... E boa semana pra você também!



foto: Maria e Renata - Corumbau - mar da Bahia

domingo, 29 de maio de 2011

O cravo não brigou com a rosa

Luiz Antônio Simas

Chegamos ao limite da insanidade da onda do politicamente correto. Soube dia desses que as crianças, nas creches e escolas, não cantam mais “O cravo brigou com a rosa”. A explicação da professora do filho de um camarada foi comovente: a briga entre o cravo – o homem – e a rosa – a mulher – estimula a violência entre os casais. Na nova letra “o cravo encontrou a rosa debaixo de uma sacada/o cravo ficou feliz /e a rosa ficou encantada”.

Que diabos é isso? O próximo passo é enquadrar o cravo na Lei Maria da Penha. Será que esses doidos sabem que “O cravo brigou com a rosa” faz parte de uma suíte de 16 peças que Villa Lobos criou a partir de temas recolhidos no folclore brasileiro? É Villa Lobos, cacete!

Outra música infantil que mudou de letra foi “Samba Lelê”. Na versão da minha infância o negócio era o seguinte: Samba Lelê tá doente/ Tá com a cabeça quebrada/ Samba Lelê precisava/ É de umas boas palmadas. A palmada na bunda está proibida. Incita a violência contra a menina Lelê. A tia do maternal agora ensina assim: Samba Lelê tá doente/ Com uma febre malvada/ Assim que a febre passar/ A Lelê vai estudar.

Se eu fosse a Lelê, com uma versão dessas, torcia pra febre não passar nunca. Os amigos sabem de quem é “Samba Lelê”? Villa Lobos de novo. Podiam até registrar a parceria. Ficaria assim: “Samba Lelê”, de Heitor Villa Lobos e Tia Nilda do Jardim Escola Criança Feliz.

Comunico também que não se pode mais atirar o pau no gato, já que a música desperta nas crianças o desejo de maltratar os bichinhos. Quem entra na roda dança, nos dias atuais, não pode mais ter sete namorados para se casar com um. Sete namorados é coisa de menina fácil.

Ninguém mais é pobre ou rico de marré-de-si, para não despertar na garotada o sentido da desigualdade social entre os homens.

Dia desses alguém (não me lembro exatamente quem se saiu com essa e não procurei a referência no meu babalorixá virtual, Pai Google da Aruanda) foi espinafrado porque disse que ecologia era, nos anos setenta, coisa de viado. Qual é o problema da frase? Ecologia, de fato, era vista como coisa de viado. Eu imagino se meu avô, com a alma de cangaceiro que possuía, soubesse, em mil novecentos e setenta e poucos, que algum filho estava militando na causa da preservação do mico leão dourado, em defesa das bromélias ou coisa que o valha. “Baitolo”, diria o velho.

Vivemos tempos de não me toques que eu magôo. Quer dizer que ninguém mais pode usar a expressão coisa de viado ? Que me desculpem os paladinos da cartilha da correção, mas isso é uma tremenda babaquice. O politicamente correto é a sepultura do bom humor, da criatividade, da boa sacanagem. A expressão coisa de viado não é, nem a pau (sem duplo sentido), ofensa a bicha alguma.

Daqui a pouco só chamaremos o anão – o popular pintor de roda-pé ou leão de chácara de baile infantil – de deficiente vertical . O crioulo – vulgo picolé de asfalto ou bola sete (depende do peso) – só pode ser chamado de afrodescendente. O branquelo – o famoso branco azedo ou Omo total – é um cidadão caucasiano desprovido de pigmentação mais evidente. A mulher feia – aquela que nasceu pelo avesso, a soldado do quinto batalhão de artilharia pesada, também conhecida como o rascunho do mapa do inferno – é apenas a dona de um padrão divergente dos preceitos estéticos da contemporaneidade. O gordo – outrora conhecido como rolha de poço, chupeta do Vesúvio, Orca, baleia assassina e bujão – é o cidadão que está fora do peso ideal. O magricela não pode ser chamado de morto de fome, pau de virar tripa e Olívia Palito. O careca não é mais o aeroporto de mosquito, tobogã de piolho e pouca telha.

Nas aulas sobre o barroco mineiro, não poderei mais citar o Aleijadinho. Direi o seguinte: o escultor Antônio Francisco Lisboa tinha necessidades especiais… Não dá. O politicamente correto também gera a morte do apelido, essa tradição fabulosa do Brasil.

O recente Estatuto do Torcedor quer, com os olhos gordos na Copa e 2014, disciplinar as manifestações das torcidas de futebol. Ao invés de mandar o juiz pra putaqueopariu e o centroavante pereba tomarnoolhodocu, cantaremos nas arquibancadas o allegro da “Nona Sinfonia” de Beethoven, entremeado pelo coro de “Jesus, alegria dos homens”, do velho Bach.

Falei em velho Bach e me lembrei de outra. A velhice não existe mais. O sujeito cheio de pelancas,doente, acabado, o famoso pé na cova, aquele que dobrou o Cabo da Boa Esperança, o cliente do seguro funeral, o popular tá mais pra lá do que pra cá, já tem motivos para sorrir na beira da sepultura. A velhice agora é simplesmente a “melhor idade”.

Se Deus quiser, morreremos, todos, gozando da mais perfeita saúde. Defuntos? Não. Seremos os inquilinos do condomínio Cidade dos Pés Juntos.

(Luiz Antônio Simas nasceu em 2 de novembro de 1967, é Império Serrano. É Mestre em História Social pela Universidade Ferderal do Rio de Janeiro e professor de História do ensino médio).

PS - Deixo claro que sou contra qualquer tipo de discriminação racial. Minha avó leu as obras da coleção para crianças do Monteiro Lobato para mim e não me tornei nem um pouco racista! Muito ao contrário, sempre adorei a Tia Anastácia.
Era chamada de branquela ou branca-azeda na escola quando algum coleguinha queria me ofender - eu detestava, mas não causou trauma algum - pelo menos, que eu saiba!
Luto pela descontinuação do uso de sacolas plásticas, não porque acredito ser politicamente correto, mas de suma importância para a nossa sobrevivência. Pode dizer que é maluquice, não estou nem aí! Melhor salvar os oceanos - e a nós mesmos!