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segunda-feira, 4 de março de 2013

Da morte e das vontades da vida

Nunca visito meus mortos no cemitério, porque acho simplesmente que eles não estão lá. Converso com eles em casa mesmo, as vezes andando na rua, vão no meu pensamento e no meu coração, afinal, é lá que de fato estão. Mas quando a minha irmã morreu, achei por bem plantarmos uma árvore pra ela no jardim da casa do meu pai, assim ela ficaria simbolizada como referência viva, até para que as filhas a pudessem visitar... Dei a ideia e meu pai achou bom, assim compramos um jasmim, cisma da minha cabeça - já imaginei o perfume sendo levado pela brisa da noite...

Sem nenhuma pompa mas com toda a circunstância, o jasminzinho foi plantado no dia do aniversário dela. Nos reunimos com essa finalidade, entre lágrimas, muitos risos e até um tombo! Meu pai e as meninas fizeram o plantio e a rega. Porém a vida - assim como a morte e a própria Janaina -  é de personalidade forte e tem lá seus caprichos: muito para o meu espanto, o jasmim morreu...

Mas aconteceu que tempos depois, meu pai recebeu, não sabe nem dizer de onde, uma muda de mamoeiro que foi plantada sem intenção de qualquer simbolismo, a poucos metros de onde havia sido plantado o jasmim: vicejou! O pézinho virou árvore, deu flor, e, esse ano, começou a dar muitos frutos lindos e deliciosos. Mamão bahia, Janaina Mamede. 

Veja você, minha irmã, mãe zelosa, não quis ser flor perfumosa, e sim alimento, fruta apetitosa. Café da manhã, fartura e gosto. E uma baita saudade.


botanical illustration 18th century


quinta-feira, 20 de maio de 2010

O besouro favorito

Give me love
Give me love

Give me peace on earth

Give me light

Give me life

Keep me free from birth

Give me hope

Help me cope, with this heavy load

Trying to touch and reach you

With heart and soul
Om m m m m m m m m m m m m m

M m m my lord . . .

Please take hold of my hand,
that
I might understand you
Won't you please
Oh won't you
Give me Love



Hoje passei o dia em muito boa companhia, escutando
George Harrison, meu Beatle preferido. Pisciano, de 24 de fevereiro de 1943, com ascendente em Libra e Lua em Escorpião. Porque ficava sempre na dele durante as entrevistas no auge da beatlemania, era chamado de "o Beatle quieto" - embora seus amigos garantam que era um ser alegre e falante no convívio. George Harrison era guitarrista, compositor, cantor, produtor de cinema e místico. Sua primeira composição a fazer muito sucesso foi a sensacional While my Guitar Gently Weeps, de 1968. Depois vieram mais clásicos de toda a vida como Something, Here Comes the Sun e Give me Love (Give me Peace on Earth), a lista é enorme...

Em sua busca espiritual, ainda nos Beatles, iniciou a prática de meditação transcendental, aprendeu a tocar cítara e abraçou a tradição Hare Krishna. Com o final da banda, em 1970, teve maior liberdade para mostrar seu trabalho e seu primeiro álbum solo depois da separação,
All Things Must Pass - considerado por muitos um dos melhores discos da história - continha a canção My Sweet Lord. Basta ouvir um acorde de uma das músicas dele que a alma já agradece em elevação. Gente, George é o cara!

Em 1971, foi o primeiro artista do rock a organizar um show humanitário, o Concerto para Bangladesh, no Madison Square Garden, NY, que reuniu mais de 40.000 pessoas e contou com as participações de seus grandes amigos Eric Clapton e Ravi Shankar.

Em novembro de 2001, doente, ciente de que a morte estava próxima, George coordenou com um amigo o que gostaria que acontecesse. Assim, cercado pela mulher, pouquíssimos amigos e ao cântigo de mantras Hare Krishna, foi para o andar de cima. Depois, suas cinzas foram jogadas no rio Ganges.
O vídeo que vou postar aqui é do show Tributo à George Harrison, realizado em 29 de novembro de 2002 no Royal Albert Hall, em Londres. A homenagem ao "quiet beatle", um ano depois da sua morte, foi organizada por sua mulher, Olivia, e pelo amigão Eric Clapton. Reparem na banda: Clapton no violão, o filho de George, Dhani, na primeira guitarra, Paul McCartney no piano, Ringo Starr e Phill Collins nas bateras, Tom Petty na segunda guitarra e Billy Preston no vocal: como tudo de George, é de arrepiar!!! (se o play não funcionar, clique em watch on youtube)



N
a semana passada, em Cannes, Martin Scorcese anunciou que está preparando um documentário sobre a vida de George, Living in the Material World: George Harrison, com lançamento programado para 2011. Oba!

segunda-feira, 29 de março de 2010

Trânsitos de Plutão, o poderoso

Chamamos de trânsitos de Plutão as períodos em que o nano-planeta lá confins da galáxia faz aspecto (um ângulo) com um planeta que temos na carta natal ou com um importante ângulo do mapa natal (ascendente, descendente, fundo do céu e meio do céu). Como o sujeito anda devagar, seus trânsitos são raros e únicos, e duram cerca de 3 ou 4 anos. Ainda bem que levam esse tempo todo acontecendo, pois as transformações realizadas são tão profunadas que não poderiam mesmo ser elaboradas por nós num período mais curto.

Plutão é Hades na mitologia grega, o senhor dos mortos e do mundo subterrâneo (leia-se senhor do inconsciente), um cara de decisões irrevogáveis, de quem ninguèm (nem Zeus) ousava discordar. Pouco saía do seu reino e, diferente dos demais deuses, que viviam se metendo em várias aventuras amorosas, Hades apaixonou-se uma única vez e abduziu sua amada Perséfone para viver com ele em seu sombrio reinado. Toda mitologia plutoniana está ligada ao processo de morte e renascimento.
Plutão gosta das profundezas, do que é denso e intenso, é um planeta sem olhos para o superficial. Suas transformações são profundas e têm o gosto da irrevocabilidade, de que nunca mais as coisas serão como antes. E não são mesmo. Somos revolvidos por dentro. Quando se fala do senhor da morte, logo pensamos em morte física: na nossa morte ou morte de um ente querido, mas quero ressaltar que, embora as mortes acima não estejam descartadas - nem em trânsitos de Plutão, nem nos de outros planetas - a morte descrita por Plutão é uma morte simbólica. A morte de uma fase, a morte de uma faceta da gente, da morte da inconsciência de determinados aspectos do eu.

O cunho psicológico de um trânsito dessa monta é um maior reconhecimento da nossa essência e de nosso todo para que vivamos mais de acordo com quem somos. Daí termos a impressão de que estamos diante de decisões e escolhas de extrema importância. Na maioria das vezes, a escolha se restringe apenas a simplesmente "fazermos bom grado aquilo que sabemos que temos que fazer", frase do eterno mestre C.G.Jung. Note que a escolha aqui é o estado de ânimo com que encaramos a inevitável batalha.

Trânsitos de Plutão exigem uma viagem aos quartos escuros da alma. Lá, junto com os ratos, medos e aspectos ocultos do eu, estão também nossos maiores tesouros. Não dá pra chegar aos tesouros sem encarar a sujeirada. Gosto da imagem do dragão que guarda o tesouro. O dragão pode ser uma renúncia, uma perda, uma traição, uma rejeição, uma dependêcia, e precisamos enfrentá-lo para poder então fazer o caminho de volta à vida. É sofrido, mas vale a pena. A recompensa é o desabrochar. Crescemos. Nos descobrimos mais fortes do que pensávamos ser, mais íntegros do que éramos e mais alinhados com nosso propósito de vida.

pintura de C.G. Jung, Shadow Cornered (Sombra Encurralada).

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Homenagem à Janaina

Queria vir aqui falar de alguma coisa alegre e bem leve, e de certa forma até que vou chegar lá. Afinal, esse é o meu blog e se ele não tiver uma proposta minimamente pessoal, vai virar alguma coisa falsa que não sou eu. Então aí vai mais uma postagem sobre a morte, mas também e mais primordialmente sobre a vida, essas duas companheiras inseparáveis. Vamos aos fatos: minha irmã Janaina, 12 anos mais jovem que eu, morreu de complicações decorrentes de uma leucemia no último dia 25. Mesmo com o diagnóstico da doença (que ocorreu há mais ou menos um mês) e o tratamento (que se não cura, mata), ela permaneceu alegre, doce, alto astral, forte, mantendo um bom humor diante da adversidade do qual só um sagitariano é capaz.

Era uma garota linda e verdadeira. Foi mãe aos 18 anos e levou firmemente adiante o projeto da maternidade e o casamento, teve outra filha aos 26 anos. Ainda assim, se formou bióloga. Era imensamente dedicada às filhas, adorava ser mãe. E só bem recentemente, nos últimos dois anos, investiu, felicíssima, na carreira de doula. Pra quem não sabe, a doula é uma espécie de parteira, mulher que acompanha a gravidez, o parto e o pós-parto, dando suporte físico e emocional à mãe e ao bebê. A doula faz o papel da mulher mais experiente, aquela que visita a casa da nova mãe e faz uma comida ou cuida por algumas horas do filho mais velho da parturiente, por exemplo, pra que esta possa se dedicar ao bebê com mais conforto. A palavra "doula" vem do grego e quer dizer "mulher que serve". Janaina estava maravilhada com a nova formação, queria ajudar, estava à serviço do feminino, sabia fornecer esse amparo. E acho muito lindo que ela tenha encontrado sua vocação assim, servindo às mães e seus filhos, afinal, minha irmã era Janaína, nome de composição iorubá: iya "mãe" + naa "que" + iyin "honra".

Para nós que ficamos, uma perda sem explicação, um desfalque irreparável. Não sei se o leitor já ouviu falar dos 5 estágios do luto: negação ou isolamento, raiva, negociação, depressão e aceitação, mas sinto como se eles tivessem sido batidos num liquificador e ficassem se alternando dentro de mim. Vou, mais uma vez, recorrer à frase de Antoine de Saint-Exupéry:
"Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós."

homenagem à minha irmã, Mãe Menininha, Mãe de todas as Mães, Janaina, Iemanjá, Rainha do Mar

Se você quiser ler o que o meu irmão, Pedro, escreveu sobre a Janaina, visite http://www.utops.com.br/

domingo, 28 de setembro de 2008

O Sopro da vida

Obituário
Aos 50 anos, morre regente Tina Pereira, da Pro Arte

Plantão Publicada em 24/09/2008 às 15h14m O Globo online
Antônio Carlos Miguel

RIO - Regente da Orquestra de Sopros Pro Arte, que, ultimamente, vinha apresentando um tributo a Egberto Gismonti, a musicista Tina Pereira morreu na manhã desta quarta-feira, em São José de Campos (SP), onde estava internada. Após estrear no Rio, na semana passada, e com um novo concerto em homenagem a Gismonti agendado para este sábado, dia 27, na Sala Baden Powell, a regente viajara para a cidade de Mirantão, em São Paulo, onde sofreu um aneurisma. Transferida para um hospital de sua cidade natal, São José dos Campos, onde seria operada, Tina, de 50 anos, não resistiu. Seu corpo será enterrado nesta quarta-feira em São José dos Campos. Formada em Educação de Música e Dança pelo Instituto Orff da Escola Superior de Música e Artes Dramáticas "Mozarteum", em Salzburg, Áustria, Tina estudou flauta com Lenir Siqueira, Carlos Ratto e Carlos Alberto Rodrigues. Integrou o duo de flauta e piano com o pianista e compositor Caio Senna, quando se dedicaram à pesquisa e execução de repertório contemporâneo para esta formação. Atuava como professora da Escola de Música Villa-Lobos, da UniverCidade, do projeto de formação musical Villa-Lobinhos, regente do Coral Infantil da Escola Sá Pereira e diretora musical da Orquestra de Sopros da Pro Arte.

O Sopro da vida
Não tem ainda sete dias que Tina morreu, mas rezo aqui minha própria missa: Tina era minha fada madrinha. Não fui batizada ao nascer e nos adotamos mútua e carinhosamente como fada madrinha e fada afilhada – fadrinha e fadaafi, para encurtar. Tinha outra fada afilhada, a Lulu.

Grande musicista e maestrina, Tina fez fluir o sopro da vida através das muitas flautas que colocou em mãos miúdas e mentes férteis. Hoje, grande parte de seus alunos propagam esse legado sendo também professores e músicos.

Tina gostava de natureza, tinha o dedo-verde, suas plantas eram as mais lindas e bem cuidadas. No natal, serviam de árvore um manjericão e uma romã, muito floridos, em anos diferentes, claro. Também gostava de poesia, de banho de rio, de prosecco e dos produtos da l´Occitane. Era uma exímia bordadeira. Organizou, com a amiga Tetê Amarante, uma cooperativa de bordadeiras em Lídice. Traziam ocasionalmente as peças bordadas para serem vendidas no Rio. Tinha pena de vender as mais criativas e “perturbadas”, então ela as comprava para si mesma, ou para dar de presente (sorte minha!). Tinha a voz doce e rouca e uma rara delicadeza, ria com facilidade.

Enfrentou com grande coragem e humildade os sobressaltos da doença e da morte do companheiro de muitos anos. Viúva, se permitiu amar de novo quando o amor lhe acenou com outra chance. Saiu à francesa, minha fada madrinha... saudades, Tinoca!

“Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós.
Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós”
Antoine de Saint-Exupéry

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Sobre o luto e a morte

Temos horror à morte e é até compreensível, posto que é a separação final, a derradeira. Parte de toda angústia humana tem a ver com separação e ela é a separação irrevogável. Mas uma coisa é certa: todos vamos, mais cedo ou mais tarde, nos deparar com ela – e não estou falando da nossa própria morte, a morte que se morre – falo da morte de entes queridos, a morte que se vive. Quanto mais vivermos, mais pessoas veremos morrer.

No tempo dos nossos avós, as pessoas morriam e eram veladas em casa, normalmente o caixão era colocado na sala da casa e velado por toda a noite, com choro, conversa, bebida e comida. As pessoas contavam casos da vida do morto, riam dos seus episódios hilários e choravam a sua partida. Só então o cortejo partia para o funeral. Hoje, morre-se mais nos hospitais e o velório praticamente não existe: no cemitério São João Batista, por exemplo, as capelas são fechadas às 22 horas por “motivo de segurança”. O morto fica lá sozinho, esperando os familiares voltarem para o enterro no dia seguinte (sem comentários).

No sétimo dia, os que são católicos celebram uma missa muito da impessoal, raramente alguém faz um discurso, toca uma música ou lê um poema em homenagem àquela vida que se foi. Aos que perderam uma pessoa amada, restam o silêncio, a solidão. Não é raro ouvir alguém falar de uma viúva ou um filho assim: “fulano tá ótimo, já até voltou a trabalhar”. Destituídos do ritual, perdemos o direito à celebração da pessoa que partiu, o direito ao luto. Não que eu ache que a vida não tenha que prosseguir – ela vai prosseguir – mas vai prosseguir melhor ainda se pudermos sentir o luto e sair dele. E para sentir o luto, precisamos poder falar sobre quem morreu, recordar histórias, rir e chorar, sentir o calor da acolhida de quem ainda está aqui, compartilhar a perda com outros que também amaram aquela pessoa. Assim, a morte tem o poder de unir os vivos.

Vai o luto e fica a saudade que volta e meia aparece precipitada pelo gosto de uma comida, por um cheiro, um sonho, uma lembrança. Nossos mortos estão vivos dentro dos nossos corações e das nossas memórias e só de fato morrerão de todo quando nós também tivermos partido. Eu sou a favor da volta do ritual, nem que seja um singelo almoço íntimo na saída do funeral... proponho uma festa (também íntima e singela) de sétimo dia.