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segunda-feira, 4 de março de 2013

Da morte e das vontades da vida

Nunca visito meus mortos no cemitério, porque acho simplesmente que eles não estão lá. Converso com eles em casa mesmo, as vezes andando na rua, vão no meu pensamento e no meu coração, afinal, é lá que de fato estão. Mas quando a minha irmã morreu, achei por bem plantarmos uma árvore pra ela no jardim da casa do meu pai, assim ela ficaria simbolizada como referência viva, até para que as filhas a pudessem visitar... Dei a ideia e meu pai achou bom, assim compramos um jasmim, cisma da minha cabeça - já imaginei o perfume sendo levado pela brisa da noite...

Sem nenhuma pompa mas com toda a circunstância, o jasminzinho foi plantado no dia do aniversário dela. Nos reunimos com essa finalidade, entre lágrimas, muitos risos e até um tombo! Meu pai e as meninas fizeram o plantio e a rega. Porém a vida - assim como a morte e a própria Janaina -  é de personalidade forte e tem lá seus caprichos: muito para o meu espanto, o jasmim morreu...

Mas aconteceu que tempos depois, meu pai recebeu, não sabe nem dizer de onde, uma muda de mamoeiro que foi plantada sem intenção de qualquer simbolismo, a poucos metros de onde havia sido plantado o jasmim: vicejou! O pézinho virou árvore, deu flor, e, esse ano, começou a dar muitos frutos lindos e deliciosos. Mamão bahia, Janaina Mamede. 

Veja você, minha irmã, mãe zelosa, não quis ser flor perfumosa, e sim alimento, fruta apetitosa. Café da manhã, fartura e gosto. E uma baita saudade.


botanical illustration 18th century


quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Homenagem à Janaina

Queria vir aqui falar de alguma coisa alegre e bem leve, e de certa forma até que vou chegar lá. Afinal, esse é o meu blog e se ele não tiver uma proposta minimamente pessoal, vai virar alguma coisa falsa que não sou eu. Então aí vai mais uma postagem sobre a morte, mas também e mais primordialmente sobre a vida, essas duas companheiras inseparáveis. Vamos aos fatos: minha irmã Janaina, 12 anos mais jovem que eu, morreu de complicações decorrentes de uma leucemia no último dia 25. Mesmo com o diagnóstico da doença (que ocorreu há mais ou menos um mês) e o tratamento (que se não cura, mata), ela permaneceu alegre, doce, alto astral, forte, mantendo um bom humor diante da adversidade do qual só um sagitariano é capaz.

Era uma garota linda e verdadeira. Foi mãe aos 18 anos e levou firmemente adiante o projeto da maternidade e o casamento, teve outra filha aos 26 anos. Ainda assim, se formou bióloga. Era imensamente dedicada às filhas, adorava ser mãe. E só bem recentemente, nos últimos dois anos, investiu, felicíssima, na carreira de doula. Pra quem não sabe, a doula é uma espécie de parteira, mulher que acompanha a gravidez, o parto e o pós-parto, dando suporte físico e emocional à mãe e ao bebê. A doula faz o papel da mulher mais experiente, aquela que visita a casa da nova mãe e faz uma comida ou cuida por algumas horas do filho mais velho da parturiente, por exemplo, pra que esta possa se dedicar ao bebê com mais conforto. A palavra "doula" vem do grego e quer dizer "mulher que serve". Janaina estava maravilhada com a nova formação, queria ajudar, estava à serviço do feminino, sabia fornecer esse amparo. E acho muito lindo que ela tenha encontrado sua vocação assim, servindo às mães e seus filhos, afinal, minha irmã era Janaína, nome de composição iorubá: iya "mãe" + naa "que" + iyin "honra".

Para nós que ficamos, uma perda sem explicação, um desfalque irreparável. Não sei se o leitor já ouviu falar dos 5 estágios do luto: negação ou isolamento, raiva, negociação, depressão e aceitação, mas sinto como se eles tivessem sido batidos num liquificador e ficassem se alternando dentro de mim. Vou, mais uma vez, recorrer à frase de Antoine de Saint-Exupéry:
"Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós."

homenagem à minha irmã, Mãe Menininha, Mãe de todas as Mães, Janaina, Iemanjá, Rainha do Mar

Se você quiser ler o que o meu irmão, Pedro, escreveu sobre a Janaina, visite http://www.utops.com.br/