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segunda-feira, 4 de março de 2013

Da morte e das vontades da vida

Nunca visito meus mortos no cemitério, porque acho simplesmente que eles não estão lá. Converso com eles em casa mesmo, as vezes andando na rua, vão no meu pensamento e no meu coração, afinal, é lá que de fato estão. Mas quando a minha irmã morreu, achei por bem plantarmos uma árvore pra ela no jardim da casa do meu pai, assim ela ficaria simbolizada como referência viva, até para que as filhas a pudessem visitar... Dei a ideia e meu pai achou bom, assim compramos um jasmim, cisma da minha cabeça - já imaginei o perfume sendo levado pela brisa da noite...

Sem nenhuma pompa mas com toda a circunstância, o jasminzinho foi plantado no dia do aniversário dela. Nos reunimos com essa finalidade, entre lágrimas, muitos risos e até um tombo! Meu pai e as meninas fizeram o plantio e a rega. Porém a vida - assim como a morte e a própria Janaina -  é de personalidade forte e tem lá seus caprichos: muito para o meu espanto, o jasmim morreu...

Mas aconteceu que tempos depois, meu pai recebeu, não sabe nem dizer de onde, uma muda de mamoeiro que foi plantada sem intenção de qualquer simbolismo, a poucos metros de onde havia sido plantado o jasmim: vicejou! O pézinho virou árvore, deu flor, e, esse ano, começou a dar muitos frutos lindos e deliciosos. Mamão bahia, Janaina Mamede. 

Veja você, minha irmã, mãe zelosa, não quis ser flor perfumosa, e sim alimento, fruta apetitosa. Café da manhã, fartura e gosto. E uma baita saudade.


botanical illustration 18th century


sexta-feira, 1 de junho de 2012

Adolescência, sexualidade, orientação e limites

Estava jantando numa varanda e não pude deixar de observar as garotas adolescentes passando em grupo a caminho das casas noturnas de um balneário carioca. A faixa etária variava dos 13 aos 16 anos. O invariável era o figurino: todas vestiam uma blusinha com certo brilho, ultra mini micro saia e sapatos de salto muito alto. A aberração era o  comprimento das saias - ou a falta dele! Não se trata de moralismo, não sou nenhuma paladina da moral e dos bons costumes, mas estavam todas vestidas de periguetes! (Nem vou entrar no mérito da cafonice master dos saltos super altos numa cidade praiana...)

O impacto das ínfimas saias, que acabavam exatamente no início das coxas e nem um milímetro a mais, era tal que, se uma daquelas garotas fosse, por desventura, vítima de violência sexual, tenho certeza que alguém argumentaria a favor do estuprador, dizendo que ela estava pedindo para que isso acontecesse... Me pergunto se os pais (ou responsáveis) acham pertinente, ou ainda por que permitem, que uma mocinha em idade tão tenra saia por aí "vestida para matar". Me pergunto se alguma vez já conversaram com as filhas no intuito de esclarecer questões sobre  sexualidade e sobre a impressão, as vezes totalmente errônea, que uma vestimenta pode causar. O amigo que estava comigo observou tratar-se de um fenômeno da moda Big Brother Brasil... Moda muito deselegante, equivocada e - por que não dizer - perigosa.

Sendo astróloga e terapeuta, parte da minha missão consiste em observar comportamentos e seus desdobramentos. Sei perfeitamente que a adolescência é a fase das descobertas e experimentações, da emergência da sexualidade, da urgência de pertencer ou ser aceita em determinados grupos. E do desabrochar da questão ainda mais profunda que costuma acompanhar as mulheres na vida adulta: a capacidade de despertar o desejo no sexo oposto como validação da sua feminilidade e às vezes, existência.

Apesar do deleite que ser desejada causa na auto estima do feminino, creio que o anseio vá além: as meninas - e mulheres - querem também ser amadas, descobrir os meandros do corpo e as delícias do sexo com um parceiro que seja de alguma forma atento também a dar prazer. Com uma iniciação sexual carinhosa, mesmo apesar dos inevitáveis atropelos da adolescência, podemos construir uma base mais inteira para a sexualidade na vida adulta.

Fica a pergunta: a quem cabe a educação sexual dos nossos filhos? 

 Se você tem um filho ou filha adolescentes e não sabe muito bem como abordar o assunto, recomendo que lhe presenteie com o livro Sexo e Amor para os Jovens, do psicanalista Flavio Gikovate. É objetivo, franco e certamente um bom começo de conversa.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Um pouco mais de gentileza e natureza

O texto a seguir é da minha amiga Beatriz Diniz, jornalista que escreve regularmente seus pontuais Eco Lógicos - eu, gostei demais e decidi partilhar mais esse:

Taí o fim de mais um ano. O tempo passa, é a natureza da vida. E foi assim que criamos os calendários, observando as marcas naturais de passagem do tempo. Aprendemos a contar o tempo baseados nos ciclos do sol, da lua, das estações. Ciclicamente, vemos início, meio e fim de um dia, de um mês, de um ano. E o mais impressionante é que, naturalmente, fim se transforma em início. Equilíbrio. Harmonia.

Somos parte da generosa natureza, que nos oferece tudo que é necessário para mantermos a vida. Temos a natureza em nós, em nossos ciclos de nascimento, crescimento e amadurecimento. Temos a natureza em nós, na composição de nosso organismo, nos elementos que precisamos botar pra dentro a nos nutrir.

Mas, estranhamente, nos distanciamos da natureza. E seguimos nos relacionando cada vez mais com objetos materiais, produzidos custe o que custar: esgotamento de recursos naturais, extinção de espécies, poluição, desmatamento...

Tictactictactictac... Num pequeno espaço de tempo você tem o poder de se aproximar da natureza, é o instante de cada decisão cotidiana, pessoal e profissional. Toda hora é momento de escolha. Use bem seu livre arbítrio. Preserve sua boa natureza. Não se desperdice. Recicle seu comportamento. Reaproveite o que há de melhor em você. Aumente suas emissões de boa vontade.

Somos o presente mais valioso, que dinheiro algum compra ou vende. Temos em nós os mais preciosos presentes.

Eco Lógico Sustentabilidade dá boas vindas a 2011, com o desejo de sermos mais naturais. Alegria. Alegria. Alegria. Abençoado seja mais um ano em nossas vidas. Que façamos com que seja de Paz, Renovação e Realizações Sublimes...

http://www.youtube.com/beatrizdinizjp


a generosa mangueira da casa do meu pai.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Poema de família

Hoje, conversando com meu pai, ele citou uns versos de um poema de Rudyard Kipling, que meu avô, pai dele, deu para ele ler quando tinha 15 anos. Qual não foi a surpresa do meu pai ao constatar que eu não sabia dessa história, sequer conhecia o poema...
Como rege a sincronicidade, chegou em muito boa hora. Histórias e poemas, passados de geração em geração, vão criando assim uma estrutura dorsal para a família (ou a tribo).
Vamos a ele:

Se

Se és capaz de manter tua calma,
quando,
todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti quando estão todos duvidando,

e para esses no entanto achar uma desculpa.

Se és capaz de esperar sem te desesperares,

ou, enganado, não mentir ao mentiroso,

Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,

e não parecer bom demais, nem pretensioso;


Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires,

de sonhar - sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires,

tratar da mesma forma a esses dois impostores.
Se és capaz de sofrer a dor de ver
mudadas,
em armadilhas as verdades que disseste

E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,

e refazê-las com o bem pouco que te reste;


Se és capaz de arriscar numa única parada,

tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.

E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,

resignado, tornar ao ponto de partida.
De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
a dar seja o que for que neles ainda existe.

E a persistir assim quando, exausto, contudo
resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,

e, entre Reis, não perder a naturalidade.

E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,

se a todos podes ser de alguma utilidade.

Se és capaz de dar, segundo por segundo,

ao minuto fatal todo valor e brilho.
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,

e - o que ainda é muito mais - és um Homem, meu filho!


(Tradução de Guilherme de Almeida do poema If)

Adorei!Page Decoration - illustration by Rudyard Kipling (1865-1936) 1926

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Curtinha - Veríssimo ou não Veríssimo?

Recebi hoje essa maravilha de uma querida amiga. É assinado pelo Veríssimo, mas como tudo na rede, a autoria pode até não ser dele... Veríssimo ou não veríssimo, é vero, vérissimo! Espia:

"Uma pessoa é uma coisa muito complicada. Mais complicada que uma pessoa, só duas. Três, então, é um caos, quando não é um drama passional. Mas as pessoas só se definem no seu relacionamento com outras. Ninguém é o que pensa que é, muito menos o que diz que é (...) Ou seja, ninguém é nada sozinho, somos o nosso comportamento com o outro".

Aí, Sonia Mendes - mestra e sábia - terapeuta de familia que, portanto, trabalha com sistemas inter-relacionais, fez o seguinte comentário: "Genial! Veríssimo pensa sistemicamente."
Naturalmente. :)


trabalho dos osgemeos, grafiteiros e artistas plásticos, os irmãos Gustavo e Otávio Pandolfo.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Gentileza é amor

Estive recentemente em Brasília para visitar a família. Um pouco na correria, pois é difícil encaixar tanta saudade em poucos dias ... mas foi muito gostoso sentir o acolhimento e o carinho com que fui recebida por cada um dos meus de lá. Pra terem uma idéia, marquei um lanche com uma amiga e, ao chegar em sua casa, havia uma mesa de Natal no jardim! Maravilhoso! Nessa casa, li a seguinte frase: "as pessoas entram em nossas vidas por acaso, mas não é por acaso que elas permanecem."

foto tirada do meu celular do detalhe da mesa da amiga

Nesse mesmo dia, o jantar na casa da outra querida era lagosta grelhada, regada à muita cerveja e muitas boas gargalhadas: uma delícia! Fui dormir todas as noites com a sensação de gratidão pela forma que estava sendo tratada. Muito bom se sentir querida. Nada substitui afeto. É o pão da alma.

Toda essa gentileza me fez pensar na forma como escolhemos tratar nossos pares. É mais corriqueiro ser amável com os que estão longe, com quem vemos pouco. O desafio é ser gentil com quem está ali ao lado, bem pertinho. Valorizar o outro apesar e justamente pela proximidade.

Esse é o meu desejo para todos nós em 2010: gentileza.

rosa branca do jardim mágico de um outro querido em Brasília.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

O que realmente importa

De tempos em tempos é bom fazer uma certa análise das nossas prioridades. Afinal, o que realmente importa? Tirando a questão da sobrevivência em si, saúde e tal, as prioridades são (ou deveriam ser) sempre muito simples. Tenho pensado muito nessa questão. Para definir prioridades, é preciso antes definir valores. São eles que norteiam tudo o mais.

Há pessoas para quem a foto vale mais que o fato, vale mais que o afeto. Não importa se é tudo falso, de fachada, se a foto ficou boa, então está tudo bem, tudo perfeito. No perfeito, não há lugar para nada que fuja do padrão, para o divórcio, para o luto, não há margem para erro ou recomeço. Os esqueletos vão ficando enterrados nos armários e fedem enquanto apodrecem. É certamente uma forma de viver: viver de aparências. Para o egocêntrico, o que importa é ele e o que pensam dele, perdendo a oportunidade de conhecer o seu entorno. A vida passa e ele deixou de conhecer um fillho, um pai, um amigo maravilhoso que estava bem ali, mas que ele não teve olhos para ver. Construiu à sua volta o muro intransponível do isolamento, e reina absoluto em seu delírio, sua bênção é mesmo sua ignorância. Para esses, tenho pouco ou nenhum tempo.

Gosto mesmo é da troca, e quero aplicar meu tempo tecendo e fortalecendo vínculos. Ter tempo de ouvir o outro e poder dialogar de coração para coração. Isso, pra mim, é o que faz a vida tão linda e rica, é o que dá sentido à nossa breve existência. Assim, posso rir, chorar e me emocionar ao descobrir o valor das relações, sejam elas de homem e mulher, de amigas, de padrasto e enteado, de tia e sobrinha, de porteiro e morador, relações de amor e de amizade. É bom demais esse negócio! Nessas relações, há integridade, integração de luz e sombra, as caveiras podem sentar na sala, são tratadas com respeito e compaixão, arejadas, trazidas ao sol da verdade, não fedem. Podem até denegrir a perfeição das aparências, mas e daí, se o que importa é o conteúdo?

Assim, termino essa postagem citando Elza Soares: "o que se leva dessa vida é o que se come, o que se bebe, o que se brinca, ai ai."


quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Homenagem à Janaina

Queria vir aqui falar de alguma coisa alegre e bem leve, e de certa forma até que vou chegar lá. Afinal, esse é o meu blog e se ele não tiver uma proposta minimamente pessoal, vai virar alguma coisa falsa que não sou eu. Então aí vai mais uma postagem sobre a morte, mas também e mais primordialmente sobre a vida, essas duas companheiras inseparáveis. Vamos aos fatos: minha irmã Janaina, 12 anos mais jovem que eu, morreu de complicações decorrentes de uma leucemia no último dia 25. Mesmo com o diagnóstico da doença (que ocorreu há mais ou menos um mês) e o tratamento (que se não cura, mata), ela permaneceu alegre, doce, alto astral, forte, mantendo um bom humor diante da adversidade do qual só um sagitariano é capaz.

Era uma garota linda e verdadeira. Foi mãe aos 18 anos e levou firmemente adiante o projeto da maternidade e o casamento, teve outra filha aos 26 anos. Ainda assim, se formou bióloga. Era imensamente dedicada às filhas, adorava ser mãe. E só bem recentemente, nos últimos dois anos, investiu, felicíssima, na carreira de doula. Pra quem não sabe, a doula é uma espécie de parteira, mulher que acompanha a gravidez, o parto e o pós-parto, dando suporte físico e emocional à mãe e ao bebê. A doula faz o papel da mulher mais experiente, aquela que visita a casa da nova mãe e faz uma comida ou cuida por algumas horas do filho mais velho da parturiente, por exemplo, pra que esta possa se dedicar ao bebê com mais conforto. A palavra "doula" vem do grego e quer dizer "mulher que serve". Janaina estava maravilhada com a nova formação, queria ajudar, estava à serviço do feminino, sabia fornecer esse amparo. E acho muito lindo que ela tenha encontrado sua vocação assim, servindo às mães e seus filhos, afinal, minha irmã era Janaína, nome de composição iorubá: iya "mãe" + naa "que" + iyin "honra".

Para nós que ficamos, uma perda sem explicação, um desfalque irreparável. Não sei se o leitor já ouviu falar dos 5 estágios do luto: negação ou isolamento, raiva, negociação, depressão e aceitação, mas sinto como se eles tivessem sido batidos num liquificador e ficassem se alternando dentro de mim. Vou, mais uma vez, recorrer à frase de Antoine de Saint-Exupéry:
"Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós."

homenagem à minha irmã, Mãe Menininha, Mãe de todas as Mães, Janaina, Iemanjá, Rainha do Mar

Se você quiser ler o que o meu irmão, Pedro, escreveu sobre a Janaina, visite http://www.utops.com.br/

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Para assistir e guardar consigo

Quero recomendar dois filmes, disponíveis em DVD, ambos produções hispano-argentinas com a fabulosa atriz uruguaia China Zorrilla no papel principal. O primeiro é Conversando com Mamãe (Conversaciones con Mama, 2004), sem exageros, um dos melhores filmes que já assisti.

O outro é Elsa e Fred (Elsa y Fred, 2005), uma divertida história de dois vizinhos idosos com comportamentos opostos diante da velhice. Elsa, espontânea e extrovertida, vive cada dia como se fosse o último, e Fred, introvertido e solitário, resignado aos limites impostos pela idade, pela sociedade e pela família.

Os dois filmes são de uma sensibilidade ímpar. Lembram-nos que apesar do envelhecimento do corpo, a cabeça e a vida podem continuar muito pensantes e interessantes. São filmes que desafiam ideias pré-concebidas sobre a vida na terceira idade, os amores, a sexualidade, a maneira como as famílias tentam controlar os mais velhos sob o pretenso véu dos cuidados e da preocupação. O assunto é de interesse geral, pois seja você jovem ou não, todos temos ou teremos convívio com pessoas mais velhas na família e, se tudo der certo, também ficaremos velhos.
Gostaria de ler aqui seus comentários sobre esses dois filmes imperdíveis.


Manoel Alexandre e China Zorrilla em Elsa & Fred

segunda-feira, 16 de março de 2009

Entre mães e filhas

Mãe: Alô?
Filha: Mãe? Posso deixar os meninos contigo hoje à noite?
Mãe: Vai sair?
Filha: Vou.
Mãe: Com quem?
Filha: Com um amigo.
Mãe: Não entendo porque você se separou do teu marido, um homem tão bom...
Filha: Mãe! Eu não me separei dele! ELE que se separou de mim!
Mãe: É... você me perde o marido e agora fica saindo por aí com qualquer um...
Filha: Eu não saio por aí com qualquer um. Posso deixar os meninos?
Mãe: Eu nunca deixei vocês com a minha mãe, para sair com um homem que não fosse teu pai! Filha: Eu sei, mãe. Tem muita coisa que você fez que eu não faço!
Mãe: O que você tá querendo dizer?
Filha: Nada! Só quero saber se posso deixar os meninos.
Mãe: Vai passar a noite com o outro? E se teu marido ficar sabendo?
Filha: Meu EX-marido!! Não acho que vai ligar muito, não deve ter dormido uma noite sozinho desde a separação!
Mãe: Então você vai dormir com o vagabundo!
Filha: Não é um vagabundo!!!
Mãe: Um homem que fica saindo com uma divorciada com filhos só pode ser um vagabundo, um aproveitador!
Filha: Não vou discutir, mãe. Deixo os meninos ou não?
Mãe: Coitados... com uma mãe assim...
Filha: Assim como?
Mãe: Irresponsável! Inconseqüente! Por isso teu marido te deixou!
Filha: CHEGA!!!
Mãe: Ainda por cima grita comigo! Aposto que com o vagabundo que tá saindo contigo você não grita.
Filha: Agora tá preocupada com o vagabundo?
Mãe: Eu não disse que era vagabundo!? Percebi de cara!
Filha: Tchau!!
Mãe: Espera, não desliga! A que horas vai trazer os meninos?
Filha: Não vou. Não vou levar os meninos,> também agora não vou mais sair!
Mãe: Não vai sair? Vai ficar em casa? E você acha o que, que o príncipe encantado vai bater na tua porta? Uma mulher na tua idade, com dois filhos, pensa que é fácil encontrar marido? Se deixar passar mais dois anos, aí sim que vai ficar sozinha a vida toda! Depois não vai dizer que não avisei! Eu acho um absurdo, na tua idade você ainda precisar que EU te empurre para sair!

O diálogo acima é fictício e desconheço o autor, recebi de uma amiga por email e não pude deixar de reparar o quanto essa filha não tem saída: se sai com um novo homem, é uma aventureira desnaturada, se não sai, é uma encalhada amargurada.

Há muito que as mulheres se tratam com esse menosprezo, a si mesmas e umas às outras. Para serem merecedoras de um mínimo de respeito e admiração, precisam preencher quesitos considerados "básicos". Não é novidade para nenhuma de nós ter nossa existência validada por outras mulheres apenas se tivermos um marido (se mantivermos a relação), se tivermos filhos, se, se, se... A baixa estima é uma praga que atravessa gerações, envenenando totalmente nossa auto-avaliação e, consequentemente, nossas escolhas.

Não tenho uma varinha de condão que resolva o problema de forma imediata e eficaz. Mas sei que algo precisa ser trazido à luz da consciência para que comece a ser trabalhado com alguma honestidade. Admitir a existência do problema é meio caminho andado, não se tornar vítima dele vestindo a carapuça da menos valia, mais mil passos em direção à glória. Precisamos viver em constante alerta para não repetir esse padrão acachapante conosco e com nossas filhas. Escorregaremos vez por outra na casca de banana deixada ali há gerações... E para levantar, uma pitada de ousadia é ingrediente essencial!


foto: Rodrigo Romano

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Uma árvore diferente

Todos os anos, minha avó Helena decorava uma planta da casa dela como árvore de natal e eu adorava aquela árvore totalmente diferente das demais. Ainda hoje é com esse espírito do diferente e com gosto de infância que penso qual planta aqui de casa vai servir de árvore de natal. Nunca fomos muito católicos nessa parte da família, aliás, nem católicos, nem de religião nenhuma. Mas havia solidariedade.

Cresci vendo minha avó servir café com leite e pão com manteiga para as mães que passavam na porta da casa dela com seus filhos à caminho do Hospital Menino Jesus. Acho que deviam saber que naquela casa havia lanche, pois era um ritual quase diário. Eu, com menos de seis anos, queria também tomar meu lanche nas canecas de plástico coloridas que eram exclusivas das mães e das crianças, e minha avó explicava que aquelas pessoas estavam indo ou vindo do hospital e que podiam estar doentes. Ela preparava o lanche e eu ajudava a servir. Era tudo muito natural, rotina, normal. A palavra "caridade" nunca era mencionada.

Hoje entendo que a árvore da casa da minha avó não era só diferente das outras, era de fato outra árvore. Minha avó não ajudava as pessoas no natal, ajudava o ano todo. Minha avó não era católica, nunca rezou, mas seu coração era mais cheio do espírito de comunhão do que qualquer outro coração que eu tenha conhecido. Meu maior orgulho é ser um fruto dessa árvore.





foto: Adriana Pinheiro

domingo, 18 de maio de 2008

A nova família

Outro dia estava em uma festa de aniversário quando o assunto cambou para o fato de reis e rainhas não viajarem no mesmo avião que seus herdeiros, pois em caso de acidente, o país ficaria sem monarca. Foi quando uma amiga disse: "taí a vantagem de filhos de pais separados: eles nunca vão perder pai e mãe em um mesmo acidente!" Inicialmente, todos acharam graça, mas dali por diante, começamos a enumerar os ganhos da criança de pais separados, e ao contrário do que se pensa, eles existem.

O divórcio marca o fim de um casamento, não o fim da família. É natural que inicialmente as coisas fiquem um pouco confusas até que todos tenham se adaptado à nova condição. O essencial para os filhos é não virarem moeda de troca, não serem postos no meio da briga. Que os pais se tratem com um mínimo de civilidade e não fiquem falando mal um do outro. Se há mágoas, que essas sejam trabalhadas com amigos e terapeutas, não com as crianças. Filhos querem poder estar com pai e mãe em datas importantes, como aniversários e apresentações do teatro da escola, sem que o fato estarem todos em um mesmo lugar seja motivo de tensão e conflito.

Quando os pais recasam, as famílias crescem, o filho passa a ter mais referências, mais pessoas a quem recorrer, a quem amar. As famílias ganham agregados, novos tios, avós, graus de parentesco tão novos que não há termos em nossa língua para designá-los. Usamos "avô-postiço" e "tio-emprestado", mas o "postiço" e o "emprestado" já estragam um pouco o vínculo. Meu pai, por exemplo, tem quatro filhos de outros casamentos e nunca os apresento como "meio-irmãos", refiro-me a eles como irmãos simplesmente, e quando tenho que explicar, prefiro dizer que são meus irmãos por parte de pai, acho mais simpático.

Temos muito o que aprender sobre a nova família, por isso recomendo a todos o livro DUAS CASAS E UMA MOCHILA que a terapeuta de família Sonia Mendes lança no próximo dia 25. Tenho certeza que o livro vai ajudar muitas crianças e pais a viverem melhor esse momento tão conturbado da separação.