quinta-feira, 8 de março de 2012

O mapa da mina

Inspirada por mestre Xico Sá e seu vasto conhecimento da alma feminina, venho também dar meu pitaco sobre o caminho que leva ao tesouro. Mapa esse destinado a ser ignorado pela maioria da, infelizmente, indiferente macharada... Digo indiferente porque, muitos homens, aqui nessa banda da Terra, parecem convictos adeptos da lei do menor esforço, fazendo a medíocre linha do se-vier-a-mim-tá-bom... Esses, desconfio, sequer lerão esse modesto post... Mas, para os poucos que se dão ao trabalho de indagar o que afinal querem as mulheres, vou ser bem direta: carinho!

É que, enquanto para os homens a chama do desejo é acesa pelos olhos, - basta observar a quantidade de revistas com fotos eróticas vendidas nas bancas de jornal para deleite dos héteros e gays, - para nós, mulheres, o portão de entrada principal são os ouvidos. Daí sermos todas apaixonadas por trovadores delicados como Gil ou Chico Buarque!

É isso, simples assim, como diria a velha canção, Try a Little Tenderness. Pode confiar, não há mulher emburrada que resista a palavras sussuradas ao pé do ouvido, podem ser doces e/ou picantes: sempre funcionam! Querido leitor, os ouvidos da sua amada são o seu passaporte para o jardim das delícias. Diga palavras simples e sinceras e terá da sua musa aquilo o que desejar.

No mais, se quiser uma aula master avançada, leia Xico Sá!

quarta-feira, 7 de março de 2012

Um tempo sem nome

Essa Pequena

Meu tempo é curto, o tempo dela sobra
Meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora
Temo que não dure muito a nossa novela, mas

Eu sou tão feliz com ela

Meu dia voa e ela não acorda
Vou até a esquina, ela quer ir para a Flórida
Acho que nem sei direito o
que é que ela fala, mas
Não canso de contemplá-la

Feito avarento, conto os meus minutos
Cada segundo que se esvai

Cuidando dela, que anda noutro mundo
Ela que esbanja suas horas ao vento, ai

Às vezes ela pinta a boca e sai
Fique à vontade, eu digo, take your time
Sinto que ainda vou penar com essa pequena, mas
O blues já valeu a pena


Um tempo sem nome

Rosiska Darcy de Oliveira, O Globo, 21/01/12

Com seu cabelo cinza, rugas novas e os mesmos olhos verdes, cantando madrigais para a moça do cabelo cor de abóbora, Chico Buarque de Holanda vai bater de frente com as patrulhas do senso comum. Elas torcem o nariz para mais essa audácia do trovador. O casal cinza e cor de abóbora segue seu caminho e tomara que ele continue cantando “eu sou tão feliz com ela” sem encontrar resposta ao “que será que dá dentro da gente que não devia”.

Afinal, é o olhar estrangeiro que nos faz estrangeiros a nós mesmos e cria os interditos que balizam o que supostamente é ou deixa de ser adequado a uma faixa etária. O olhar alheio é mais cruel que a decadência das formas. É ele que mina a autoimagem, que nos constitui como velhos, desconhece e, de certa forma, proíbe a verdade de um corpo sujeito à impiedade dos anos sem que envelheça o alumbramento diante da vida .

Proust, que de gente entendia como ninguém, descreve o envelhecer como o mais abstrato dos sentimentos humanos. O príncipe Fabrizio Salinas, o Leopardo criado por Tommasi di Lampedusa, não ouvia o barulho dos grãos de areia que escorrem na ampulheta. Não fora o entorno e seus espelhos, netos que nascem, amigos que morrem, não fosse o tempo “um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho“, segundo Caetano, quem, por si mesmo, se perceberia envelhecer? Morreríamos nos acreditando jovens como sempre fomos.

A vida sobrepõe uma série de experiências que não se anulam, ao contrário, se mesclam e compõem uma identidade. O idoso não anula dentro de si a criança e o adolescente, todos reais e atuais, fantasmas saudosos de um corpo que os acolhia, hoje inquilinos de uma pele em que não se reconhecem. E, se é verdade que o envelhecer é um fato e uma foto, é também verdade que quem não se reconhece na foto, se reconhece na memória e no frescor das emoções que persistem. É assim que, vulcânica, a adolescência pode brotar em um homem ou uma mulher de meia-idade, fazendo projetos que mal cabem em uma vida inteira.

Essa doce liberdade de se reinventar a cada dia poderia prescindir do esforço patético de camuflar com cirurgias e botoxes — obras na casa demolida — a inexorável escultura do tempo. O medo pânico de envelhecer, que fez da cirurgia estética um próspero campo da medicina e de uma vendedora de cosméticos a mulher mais rica do mundo, se explica justamente pela depreciação cultural e social que o avançar na idade provoca.

Ninguém quer parecer idoso, já que ser idoso está associado a uma sequência de perdas que começam com a da beleza e a da saúde. Verdadeira até então, essa depreciação vai sendo desmentida por uma saudável evolução das mentalidades: a velhice não é mais o que era antes. Nem é mais quando era antes. Os dois ritos de passagem que a anunciavam, o fim do trabalho e da libido, estão, ambos, perdendo autoridade. Quem se aposenta continua a viver em um mundo irreconhecível que propõe novos interesses e atividades. A curiosidade se aguça na medida em que se é desafiado por bem mais que o tradicional choque de gerações com seus conflitos e desentendimentos. Uma verdadeira mudança de era nos leva de roldão, oferecendo-nos ao mesmo tempo o privilégio e o susto de dela participar.

A libido, seja por uma maior liberalização dos costumes, seja por progressos da medicina, reclama seus direitos na terceira idade com uma naturalidade que em outros tempos já foi chamada de despudor. Esmaece a fronteira entre as fases da vida. É o conceito de velhice que envelhece. Envelhecer como sinônimo de decadência deixou de ser uma profecia que se autorrealiza. Sem, no entanto, impedir a lucidez sobre o desfecho.

”Meu tempo é curto e o tempo dela sobra”, lamenta-se o trovador, que não ignora a traição que nosso corpo nos reserva. Nosso melhor amigo, que conhecemos melhor que nossa própria alma, companheiro dos maiores prazeres, um dia nos trairá, adverte o imperador Adriano em suas memórias escritas por Marguerite Yourcenar.

Todos os corpos são traidores. Essa traição, incontornável, que não é segredo para ninguém, não justifica transformar nossos dias em sala de espera, espectadores conformados e passivos da degradação das células e dos projetos de futuro, aguardando o dia da traição.Chico, à beira dos setenta anos, criando com brilho, ora literatura , ora música, cantando um novo amor, é a quintessência desse fenômeno, um tempo da vida que não se parece em nada com o que um dia se chamou de velhice. Esse tempo ainda não encontrou seu nome. Por enquanto podemos chamá-lo apenas de vida.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Da vida

Salve, gente! Andei sumida, é verdade... Mesmo sendo uma geminiana falante, andante, (e muito pensante), tenho cá os meus silêncios. Ora por não ter nada a dizer, ora por estar absorta num universo interno que não se deixa articular. Não se trata de um silêncio frio ou indiferente, há calor e alguma melodia no meu calar. Os tempos do silêncio são tempos de mar, ajustes internos, prioridades da alma.

Dessas, estar com quem me sinto aceita e à vontade são um grande prazer. Estar comigo tem sido assim. Pode ser que isso seja a tal maturidade que o povo fala e nunca soube exatamente o que era... Será que parte da maturidade tem a ver com se aceitar? Se for, o troço é bom, viu? Vale deixar um pouco da juventude (e seu intenso desejo de agradar) para trás, conviver com as rugas, mazelas, perebas. Existe nisso vasto alívio e liberdade.

Nessa onda liberta, resolvi sair sozinha, ouvir um pouco de música. Engraçado como em pleno século XXI estar sozinha num bar/restaurante causa espanto, um certo olhar de desolação, como se a pessoa sozinha fosse meio estranha, infeliz, sei lá... Mas o melhor disso é a diversão: Diz o maitre: "a mesa é para quantas pessoas?" e dá vontade de dizer: "para três: me, myself and I" - a tradução dessa expressão seria talvez um "mim, eu mesma e eu" - tríade até que bem divertida! A música era da melhor qualidade: violão, baixo, batera e sax - alternado com flauta transversa - uma festa para os ouvidos. - Gostei tanto que vou voltar lá! - De repente, senta ao meu lado um garoto de 8 anos, filho de um grande amigo. A conversa é interessantíssima, puxa assunto de cinema, falamos sobre o bruxo Harry Potter, depois me fala dos lugares do mundo onde "é amarradão para ir". Meu coração transborda de admiração por toda aquela graça e vivacidade, uma alegria!
E penso que a vida é mesmo maravilhosa quando estamos receptivos a ela...
As vezes, achamos que estamos juntos e estamos sós, outras vezes, achamos que estamos sós, e estamos juntos! Saravá!Detail from the Miggy Tree illustrated by Anna Walker

domingo, 23 de outubro de 2011

Embalado individualmente

Como não sei para quem reclamar, desabafo aqui mesmo... à beira do caos ecológico e da entrada de Netuno em Peixes, me parece óbvio que deveríamos estar econômicos com as embalagens, especialmente as de plástico. Ao invés disso, tenho notado que agora tudo é embalado um a um... estamos gastando mais em embalagem. Na verdade, muito mais do que gastávamos há poucos anos. Não faz muito tempo, por exemplo, que os modess, absorventes higiênicos, vinham todos dentro de uma única caixa ou saco, dobrados ou retos, ali, juntinhos num grupinho. Agora vêm embalados um a um, noutro plastiquinho, tipo, cada um no seu. Por que?

Canudo, ketchup, maionese, guardanapo de papel, tudo agora é embalado individualmente, um a um, tudo tem capa! Não entendo! A gente não deveria estar economizando os recursos do planeta? ou esqueceram de avisar isso pro pessoal que é designer e marqueteiro das indústrias? De vez em quando me pergunto o que faz o marketing de uma empresa de cosméticos, por exemplo, não pensar em reciclagem, em sistemas de refil, onde o cliente paga só pelo produto, não pela embalagem, que ele, inclusive, já tem.

Comentei com uma amiga, ela disse: "Adriana, o povo tá pa-ra-nói-co com bactéria, repara só!" Ah, pensei, então é por isso que até o açúcar, agora, nos bares e cafés daqui, vem numa embalagem individual??? Jesus! Nunca ouvi dizer que alguém tenha morrido porque tomou café no bar tal com açúcar estragado... Nem acho que condimentos, como ketchup e maionese precisem ficar em saquinhos 'cada um na sua'. Basta o dono do estabelecimento comercial lavar os frascos e mantê-los limpos e frescos, ou tô louca?

Numa clínica de terapia ou salão de beleza, você sabia que é lei ter copos descartáveis? Pois é! Aqui no RJ, pelo menos, as leis estão burras assim! Super politicamente corretas com a vigilância sanitária. Copo de vidro em salão de beleza? Não pode! Quem foi o mentor dessa lei, gente? Quando a lei mudou? Será lei municipal, estadual ou federal? O que há de errado em LAVAR os copos de vidro? O que aconteceu com o velho e eficiente trio água- esponja-detergente? Se a paranóia é de doença e contágio, cada pessoa deveria então andar com seu próprio copinho!

Quando alguém me serve um cafézinho em copo de plástico ou isopor, cismo que a quentura do café fez derreter um pouco do plástico e que vou tomar café-com-plástico! Pode parecer loucura, mas isso sim: loucura - cada um com a sua. Essa é a minha, embalada individualmente. Não tomo nada quente dentro de copo de plástico. Tenho medo da química! Sempre que tenho opção, prefiro um copo de vidro, uma xicrinha...

Será que houve alguma epidemia secreta por causa de canudo com leptospirose? Canudos com camisinha fazem parte do 'choque de ordem' do atual prefeito??? Ainda mais cinicamente falando: que empresas estarão lucrando com o 'universo dos sachês & embalagens individuais'? Não vai adiantar nada ter muito dinheiro e tudo devidamente esterelizado e embalado se não tiver peixe no mar... Pelas barbas de Netuno!

Loucuras à parte, já parou pra pensar na quantidade de lixo formada apenas por copinhos de plástico, camisinhas de canudos e sachês de mostarda, ainda, mini plastiquinhos embaladores de modess, sacos de mercado e tralha e tal, pra onde vai tanto desperdício, minha gente???
Vai contaminar o solo e os oceanos... e a gente precisa deles pra viver, não precisa?

O que custa mais caro, educar uma criança ou arcar com um presidiário? Investir em embalagens eficientes e responsáveis ou em aterros sanitários? Perdoe a minha chatice, mas de vez em quando faço umas contas, assim, no pensamento, em pleno domingão... E boa semana pra você também!



foto: Maria e Renata - Corumbau - mar da Bahia

sábado, 20 de agosto de 2011

Minimamente Feliz

Leila Ferreira - jornalista

A felicidade é a soma das pequenas felicidades. Li essa frase num outdoor em Paris e soube, naquele momento, que meu conceito de felicidade tinha acabado de mudar. Eu já suspeitava que a felicidade com letras maiúsculas não existia, mas dava a ela o benefício da dúvida.Afinal, desde que nos entendemos por gente aprendemos a sonhar com essa felicidade no superlativo. Mas ali, vendo aquele outdoor estrategicamente colocado no meio do meu caminho (que de certa forma coincidia com o meio da minha trajetória de vida), tive certeza de que a felicidade, ao contrário do que nos ensinaram os contos de fadas e os filmes de Hollywood, não é um estado mágico e duradouro.

Na vida real, o que existe é uma felicidade homeopática, distribuída em conta-gotas. Um pôr-de-sol aqui, um beijo ali, uma xícara de café recém-coado, um livro que a gente não consegue fechar, um homem que nos faz sonhar, uma amiga que nos faz rir. São situações e momentos que vamos empilhando com o cuidado e a delicadeza que merecem alegrias de pequeno e médio porte e até grandes (ainda que fugazes) alegrias.

Eu contabilizo tudo de bom que me aparece, sou adepta da felicidade homeopática. Se o zíper daquele vestido que eu adoro volta a fechar (ufa!) ou se pego um congestionamento muito menor do que eu esperava, tenho consciência de que são momentos de felicidade e vivo cada segundo.
Alguns crescem esperando a felicidade com maiúsculas e na primeira pessoa do plural: 'Eu me imaginava sempre com um homem lindo do lado, dizendo que me amava e me levando pra lugares mágicos Agora, se descobre que dá para ser feliz no singular:'Quando estou na estrada dirigindo e ouvindo as músicas que eu amo, é um momento de pura felicidade. Olho a paisagem, canto, sinto um bem-estar indescritível'.

Uma empresária que conheci recentemente me contou que estava falando e rindo sozinha quando o marido chegou em casa. Assustado, ele perguntou com quem ela estava conversando: 'Comigo mesma', respondeu. 'Adoro conversar com pessoas inteligentes'. Criada para viver grandes momentos, grandes amores e aquela felicidade dos filmes, a empresária trocou os roteiros fantasiosos por prazeres mais simples e aprendeu duas lições básicas: que podemos viver momentos ótimos mesmo não estando acompanhadas e que não tem sentido esperar até que um fato mágico nos faça felizes.

Esperar para ser feliz, aliás, é um esporte que abandonei há tempos. E faz parte da minha 'dieta de felicidade' o uso moderadíssimo da palavra 'quando'. Aquela história de 'quando eu ganhar na Mega Sena', 'quando eu me casar', 'quando tiver filhos', 'quando meus filhos crescerem', 'quando eu tiver um emprego fabuloso' ou 'quando encontrar um homem que me mereça', tudo isso serve apenas para nos distrair e nos fazer esquecer da felicidade de hoje. Esperar o príncipe encantado, por exemplo, tem coisa mais sem sentido? Mesmo porque quase sempre os súditos são mais interessantes do que os príncipes; ou você acha que a Camilla Parker-Bowles está mais bem servida do que a Victoria Beckham?

Como tantos já disseram tantas vezes, aproveitem o momento, amigos. E quem for ruim de contas recorra à calculadora para ir somando as pequenas felicidades.Podem até dizer que nos falta ambição, que essa soma de pequenas alegrias é uma operação matemática muito modesta para os nossos tempos. Que digam.

Melhor ser minimamente feliz várias vezes por dia do que viver eternamente em compasso de espera.


foto: Adriana Pinheiro (orquidário da 'mãe' Nely)

Acredito profundamente nessa felicidade das pequenas coisas e por isso adorei esse texto! Mas tenho uma importante ressalva: admiro o príncipe Charles por assumir seu amor por Camila, que embora feiosa parece ser uma mulher interessante e cheia de conteudo. Já Victoria Beckham, sinceramente, apesar do marido lindo, me parece uma pessoa muito infeliz com questões de aparência e sérios distúrbios alimentares... Portanto, talvez Camila esteja sim mais "bem servida" que Victoria.
Pronto, falei!

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Florais para TPM

A postagem mais comentada desse blog é sobre TPM. Muito contente com o debate que se entabulou nos comentários, resolvi postar uma fórmula de florais para as mulheres que sofrem nesse período.

Florais atuam primeiramente no lado emocional e têm também efeito físico.
Nessa fórmula específica, um deles atua como um regulador hormonal (Pomegranate); outro é para irritabilidade, o nome já diz tudo, tipo "vou matar um!", (Mala Mujer); há um para aqueles sentimentos de rejeição do tipo "socorro, estou carente..." (Evening Primrose); e outro que é para equlibrar o sistema nervoso (Lavander); e ainda o australiano She Oak, que também trabalha infertilidade (quando não há aparente causa física) e disfunções hormonais, devendo, inclusive, ser usado durante a menopausa.
Não possuem contra-indicações e podem ser tomados por quem faz uso de outros medicamentos. A fórmula pode ser tomada apenas na fase mais aguda da TPM ou durante todo o mês.
  • Evening Primrose (Califórnia)
  • Pomegranate (Califórnia)
  • Lavander (Califórnia)
  • She Oak (Australia)
  • Mala Mujer (Deserto)
Podem ser manipulados todos juntos em vidros de 30ml ou 60ml. Recomendo tomar 1/2 conta-gotas direto na língua ou diluído em um pouco d´água - para quem não gosta do gosto de conhaque. Devem ser tomados de 3 a 6 vezes ao dia.
Espero que se beneficiem com o alívio!


A flor da romã, nossa amiga protetora do feminino, Pomegranate.

domingo, 29 de maio de 2011

O cravo não brigou com a rosa

Luiz Antônio Simas

Chegamos ao limite da insanidade da onda do politicamente correto. Soube dia desses que as crianças, nas creches e escolas, não cantam mais “O cravo brigou com a rosa”. A explicação da professora do filho de um camarada foi comovente: a briga entre o cravo – o homem – e a rosa – a mulher – estimula a violência entre os casais. Na nova letra “o cravo encontrou a rosa debaixo de uma sacada/o cravo ficou feliz /e a rosa ficou encantada”.

Que diabos é isso? O próximo passo é enquadrar o cravo na Lei Maria da Penha. Será que esses doidos sabem que “O cravo brigou com a rosa” faz parte de uma suíte de 16 peças que Villa Lobos criou a partir de temas recolhidos no folclore brasileiro? É Villa Lobos, cacete!

Outra música infantil que mudou de letra foi “Samba Lelê”. Na versão da minha infância o negócio era o seguinte: Samba Lelê tá doente/ Tá com a cabeça quebrada/ Samba Lelê precisava/ É de umas boas palmadas. A palmada na bunda está proibida. Incita a violência contra a menina Lelê. A tia do maternal agora ensina assim: Samba Lelê tá doente/ Com uma febre malvada/ Assim que a febre passar/ A Lelê vai estudar.

Se eu fosse a Lelê, com uma versão dessas, torcia pra febre não passar nunca. Os amigos sabem de quem é “Samba Lelê”? Villa Lobos de novo. Podiam até registrar a parceria. Ficaria assim: “Samba Lelê”, de Heitor Villa Lobos e Tia Nilda do Jardim Escola Criança Feliz.

Comunico também que não se pode mais atirar o pau no gato, já que a música desperta nas crianças o desejo de maltratar os bichinhos. Quem entra na roda dança, nos dias atuais, não pode mais ter sete namorados para se casar com um. Sete namorados é coisa de menina fácil.

Ninguém mais é pobre ou rico de marré-de-si, para não despertar na garotada o sentido da desigualdade social entre os homens.

Dia desses alguém (não me lembro exatamente quem se saiu com essa e não procurei a referência no meu babalorixá virtual, Pai Google da Aruanda) foi espinafrado porque disse que ecologia era, nos anos setenta, coisa de viado. Qual é o problema da frase? Ecologia, de fato, era vista como coisa de viado. Eu imagino se meu avô, com a alma de cangaceiro que possuía, soubesse, em mil novecentos e setenta e poucos, que algum filho estava militando na causa da preservação do mico leão dourado, em defesa das bromélias ou coisa que o valha. “Baitolo”, diria o velho.

Vivemos tempos de não me toques que eu magôo. Quer dizer que ninguém mais pode usar a expressão coisa de viado ? Que me desculpem os paladinos da cartilha da correção, mas isso é uma tremenda babaquice. O politicamente correto é a sepultura do bom humor, da criatividade, da boa sacanagem. A expressão coisa de viado não é, nem a pau (sem duplo sentido), ofensa a bicha alguma.

Daqui a pouco só chamaremos o anão – o popular pintor de roda-pé ou leão de chácara de baile infantil – de deficiente vertical . O crioulo – vulgo picolé de asfalto ou bola sete (depende do peso) – só pode ser chamado de afrodescendente. O branquelo – o famoso branco azedo ou Omo total – é um cidadão caucasiano desprovido de pigmentação mais evidente. A mulher feia – aquela que nasceu pelo avesso, a soldado do quinto batalhão de artilharia pesada, também conhecida como o rascunho do mapa do inferno – é apenas a dona de um padrão divergente dos preceitos estéticos da contemporaneidade. O gordo – outrora conhecido como rolha de poço, chupeta do Vesúvio, Orca, baleia assassina e bujão – é o cidadão que está fora do peso ideal. O magricela não pode ser chamado de morto de fome, pau de virar tripa e Olívia Palito. O careca não é mais o aeroporto de mosquito, tobogã de piolho e pouca telha.

Nas aulas sobre o barroco mineiro, não poderei mais citar o Aleijadinho. Direi o seguinte: o escultor Antônio Francisco Lisboa tinha necessidades especiais… Não dá. O politicamente correto também gera a morte do apelido, essa tradição fabulosa do Brasil.

O recente Estatuto do Torcedor quer, com os olhos gordos na Copa e 2014, disciplinar as manifestações das torcidas de futebol. Ao invés de mandar o juiz pra putaqueopariu e o centroavante pereba tomarnoolhodocu, cantaremos nas arquibancadas o allegro da “Nona Sinfonia” de Beethoven, entremeado pelo coro de “Jesus, alegria dos homens”, do velho Bach.

Falei em velho Bach e me lembrei de outra. A velhice não existe mais. O sujeito cheio de pelancas,doente, acabado, o famoso pé na cova, aquele que dobrou o Cabo da Boa Esperança, o cliente do seguro funeral, o popular tá mais pra lá do que pra cá, já tem motivos para sorrir na beira da sepultura. A velhice agora é simplesmente a “melhor idade”.

Se Deus quiser, morreremos, todos, gozando da mais perfeita saúde. Defuntos? Não. Seremos os inquilinos do condomínio Cidade dos Pés Juntos.

(Luiz Antônio Simas nasceu em 2 de novembro de 1967, é Império Serrano. É Mestre em História Social pela Universidade Ferderal do Rio de Janeiro e professor de História do ensino médio).

PS - Deixo claro que sou contra qualquer tipo de discriminação racial. Minha avó leu as obras da coleção para crianças do Monteiro Lobato para mim e não me tornei nem um pouco racista! Muito ao contrário, sempre adorei a Tia Anastácia.
Era chamada de branquela ou branca-azeda na escola quando algum coleguinha queria me ofender - eu detestava, mas não causou trauma algum - pelo menos, que eu saiba!
Luto pela descontinuação do uso de sacolas plásticas, não porque acredito ser politicamente correto, mas de suma importância para a nossa sobrevivência. Pode dizer que é maluquice, não estou nem aí! Melhor salvar os oceanos - e a nós mesmos!


domingo, 15 de maio de 2011

Um homem pra chamar de seu

Acabei de ler um livro chamado O Mundo Pós-Aniversário, de Leonel Shriver. Logo no começo da história, a personagem principal, que é casada, sente enorme atração por um amigo do casal. A partir daí, o livro se alterna em duas narrativas. Na primeira, ela resiste à tentação e continua casada, embora empurrando para debaixo do tapete seus anseios e frustrações para não "criar problema". Na segunda, ela inicia um romance com o amigo e deixa o marido para ir viver o novo amor. Nessa segunda relação, ela se vê relegando o seu trabalho para orbitar em torno do novo marido. De uma ou outra forma, a trama nos faz refletir sobre temas como segurança, submissão, auto estima, erotismo e tudo o que compraz o universo ou papel do feminino dentro de um relacionamento amoroso. É impossível não se identificar com a personagem e também não se aturdir com as "burrices" dela... uma leitura muito interessante e instigante que nos coloca frente à frente com nossas próprias barganhas relacionais.

É essencial ressaltar o quanto, apesar de todas as conquistas no âmbito sócio-econômico, nós mulheres continuamos tendo a vida amorosa como fonte primordial de validação da nossa existência/felicidade. Talvez por questões fora do alcance consciente... Recebemos uma herança de crença coletiva que pode sussurar ou gritar frases como "você é independente demais para atrair um homem", "o fim do seu casamento foi culpa sua, você não soube "segurar" o seu marido", "coitada de você, está sozinha... não dá sorte nos relacionamentos!" Se essas vozes estão secretamente no comando, que preço estamos dispostas a pagar para ter um relacionamento? Calar essas vozes talvez seja uma tarefa individual, mas que precisa ser trazida à luz da discussão se for para transmitirmos às gerações futuras conceitos mais flexíveis de felicidade.

No último programa Saia Justa, exibido no GNT, foi posto em debate o resultado de uma pesquisa da cientista social Debora Emm, exatamente sobre esse tema. A revelação de um segredo íntimo, a nossa sensação de inadequação ou incompetência quando estamos sozinhas. Vale assistir:

terça-feira, 26 de abril de 2011

Mais uma vez

Ontem fiquei pensando nessa música do Renato Russo, não cantarolando, mas pensando nos versos da letra, como quem lê um poema em voz baixa. Pensei também nas pessoas, na "gente". No que cada um traz dentro de si, diz, faz, sente. Nem sempre fico feliz com o que faço ou sinto ou digo... Claro que não!!!
Pensei numa expressão que a minha comadre Marcia, pessoa muito perspicaz, usa. Ela às vezes diz assim: "Mas isso mostra exatamente que qualidade de gente fulana(o) é!" Qualidade de gente, linda expressão! Então, voltando ao pensamento de ontem, pensava em que "qualidade de gente" eu sou e no que quero ser. Que brutalidades internas lapidar e quais jardins cultivar. Que sombras tratar com ternura... como sugere outra música - também chamada Mais Uma Vez, do Lobão. Afinal, gente é gente, luz e
sombra, bondade e maldade, generosidade e mesquinhez, tudo em doses que variam, tanto de uns para os outros, como de acordo com diferentes fases ou mesmo ocasiões.

Gosto de pensar que além da luz e da sombra, e da muita penumbra, englobando tudo isso, há ainda o tal diamante - o que não quebra e nem se altera de acordo com a pressão e a temperatura. O que C.G.Jung chamou de self, o "
si mesmo", (muito mal traduzindo). Enquanto o ego é o centro da consciência, o self é o centro interno de toda a personalidade, que inclui o consciente, o inconsciente e o ego. Do self emana todo o potencial energético de que a psique dispõe, agindo como equilibrador e organizador da saúde do psiquismo.
É isso que diz a música do querido poeta Renato:


Mais Uma Vez (Renato Russo)

Mas é claro que o sol vai voltar amanhã
Mais uma vez, eu sei
Escuridão já vi pior, de endoidecer gente sã
Espera que o sol já vem.

Tem gente que está do mesmo lado que você
Mas deveria estar do lado de lá
Tem gente que machuca os outros
Tem gente que não sabe amar
Tem gente enganando a gente
Veja a nossa vida como está
Mas eu sei que um dia a gente aprende
Se você quiser alguém em quem confiar
Confie em si mesmo
Quem acredita sempre alcança!

Mas é claro que o sol vai voltar amanhã
Mais uma vez, eu sei
Escuridão já vi pior, de endoidecer gente sã
Espera que o sol já vem.

Nunca deixe que lhe digam que não vale a pena
Acreditar no sonho que se tem
Ou que seus planos nunca vão dar certo
Ou que você nunca vai ser alguém
Tem gente que machuca os outros
Tem gente que não sabe amar
Mas eu sei que um dia a gente aprende
Se você quiser alguém em quem confiar
Confie em si mesmo
Quem acredita sempre alcança!

A letra diz: confie em si mesmo, confie no self (nos seus instinstos).

Depois disso, ou melhor, junto com isso, lembrei de um Eco Lógico que a minha amiga jornalista Beatriz Diniz escreveu e me enviou faz algum tempo, usando também a músca do Renato Russo. Esse específico Eco Lógico me impressionou e cabe publicar parte dele aqui:

"Tem gente que não gosta de gente. Tem gente que não gosta de gente e finge que gosta. Tem gente que não gosta de nada em si e sente raiva de quem tem estima própria. Tem gente que se maltrata e maltrata os outros. Tem gente que se esforça para esconder que não é como parece ser, tem gente que é convincente pacas nisso, como sociopatas e psicopatas. Tem gente que faz qualquer coisa pra conseguir o que quer. Tem gente que não assume suas responsabilidades e bota a culpa por tudo nos outros. Tem gente que se beneficia prejudicando os outros. Tem gente sem escrúpulos, sem ética. Tem gente que mente tão compulsivamente quanto se compra ou se come. Tem gente que acredita nas próprias mentiras, e ai de quem perceber. Tem gente que fala como se palavras não representassem gestos nem refletissem condutas. Tem gente que repete as últimas síladas da última palavra que você disse, como se assim se apropriasse da frase, do raciocínio, do conteúdo alheio. Tem gente tão infeliz que quer dos outros aquele patrimônio intelectual individual, e o arcabouço cultural íntimo, o que é intransferível senão por generosidade, troca fraterna. Tem gente que desafia a bondade. Tem gente que não crê no triunfar sob a guia do bem. Tem gente que tripudia das boas intenções. Quando ocorre de cruzar nosso caminho gente assim, uau, é oportunidade divina para afirmação da fé, e isso não se trata de religião. Confiamos em nossas boas intenções, usamos nosso livre arbítrio para escolher não mentir, não aparentar, não desgostar, não prejudicar os outros, não cobiçar do alheio seu ser e estar. Triunfamos no mérito, aprendemos na verdade, vivendo, sem tomar fáceis atalhos. Declinamos de pequenezas, estranhamos mesquinharias. Tentamos, nem sempre conseguimos, afinal, não somos perfeitos, fraquejamos. E somos diferentes, porque as diferenças nos ensinam."

Para ver esse e outros Eco Lógicos, visite: https://www.facebook.com/home.php#!/eco.logico.sustentabilidade


Voltando à C.G. Jung, a mandala simboliza o self "um refúgio de totalidade e reconciliação interior, a síntese de diversos elementos num esquema unificado, representando a natureza básica da existência."

domingo, 27 de março de 2011

Sobre Urano em Áries

Como primeiro signo do zodiaco, Áries representa o portal de entrada para os 12 signos, o fogo primal, o início dos inícios. É um signo espontâneo e impetuoso, cheio de coragem e vigor. Urano leva aproximadamente 84 anos para dar a volta em todo o zodíaco, tendo então estado em Áries, pela última vez, de 1927 à 1935. Em termos coletivos, a chegada do "despertador celestial" ao signo do fogo inicial pode causar muita instabilidade, terremotos, erupções vulcânicas, sendo que eu não descartaria a possibilidade de violência bélica à medida que em 2012 ele forma uma quadratura com Plutão em Capricórnio.

Urano é o planeta mais irreverente do sistema solar. Está pautado na lei da impermanência. Inesperado, precipitador de mudanças súbitas e de novidades, é o planeta que inverte padrões, sempre desafiando o status quo. Pode parecer um tanto abrupto em sua forma de impor primeiro a desordem e o caos, para poder então imprimir uma nova ordem. É um planeta de abertura às novas possibilidades. Sem compromisso com o acerto, Urano valoriza a experiência do desafio, e nos impele a sair da "zona de conforto" e buscar novas formas de agir. Em termos pessoais, quem tem planetas nos primeiros 10 graus de Áries, Libra, Câncer e Capricórnio está mais imediatamente pilhado por essa energia. Gradativamente, ao longo dos próximos 7 anos, todos com planetas nesses signos serão afetados.

Vamos ter que fazer difente. Mudar ou, ao menos, adotar uma postura mais irreverente e criativa diante da vida. Quanto mais estapafúrdia, excêntrica e inovadora for uma idéia, quanto mais inusitada uma situação, mais Urano nos apoiará na empreitada. Costumo usar a frase "salto de crescimento individual" ao ler trânsitos de Urano. É isso o que ele causa, um baita desconforto ante ao deconhecido, muita adrenalina, inquietação e excitabilidade para que se possa chegar ao despertar (ou insight) que leva ao salto radical. Sem garantias, sem saber ao certo onde se vai chegar... Capacidade de improviso, adaptabilidade e ousadia são ingredientes indispensáveis diante de tais desafios. O cara diz mais ou menos assim: "tava achando que já viveu tudo o que tinha pra viver? pois então, aí vai novidade, se vira aeeeeeeee!"


Canção Mínima
No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.

E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro, uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,

Entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta.

(Cecília Meireles)

quarta-feira, 2 de março de 2011

A ré do verbo (sem objeto)


Revoar, remeter, repartir, recordar.
Remoer, resistir, rebolar, reverter.
Rebater, retrair, retirar.
Requebrar, remexer, redescobrir.
Revolver, reconfortar, ressonar.
Restaurar.
Repensar, refletir, refrasear.
Remarcar, repetir. (Repetir).
Resolver, refazer, reunir, receber.
Retornar, respirar, ressurgir, reinar.
Remar.
Ainda que, mais uma vez, sem rima.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Tragédia em 3 atos

Primeiro ato - estou no show da Amy Winehouse, setor cadeiras 1, fico todo o tempo anterior ao show com a minha amiga em pé em um lugar super ultra estratégico, onde não atrapalhávamos a visão de ninguém e ninguém a nossa. O show começa. Amy está ótima, tudo de bom! De repente aparece uma quarentona e suas duas filhas adolescentes, uma com uns 16, a outra com uns 12. Na maior cara de pau, a perua se prostra na minha frente e incentiva as filhinhas lendeas a ficarem na frente da minha amiga. Com toda a educação, toco gentilmente no ombro da folgada e digo: "dá pra vocês chegarem um pouquinho para o lado? Vocês estão na nossa frente..." Ao que a bruaca retruca secamente: "Não! Tô afim de ficar aqui mesmo!". Primeiro, fantasiei sobre empurrá-la escada abaixo, numa mistura de dia de fúria com a noiva de chuck. Depois, olhei com uma calma ártica para sua bolsinha de corrente dourada, Chanel falsa, e para seu iphone (ela filmava o show ao invés de assistir e curtir) e senti profunda repulsa por ela, por sua sua noção de grande importância e esperteza e pela educação(?) e exemplo que estava dando às filhas. Com garra, apelei para o divino e evoquei o Exu-tira-essa-gentalha-daqui-já, uma entidade que inventei, mas a qual respeito profundamente, porque, com Exu, inventado ou não, você sabe, não se brinca. A intrusa pode não ter obedecido a mim, ou às normas da boa vizinhança, mas à Ele, ela obedeceu. Ah se não obedeceu... E foram elas com suas chanelzinhas da china, iphones e blackberries se chegando para o lado e nossa visão glamurosa de Amy voltou a reinar.

Segundo ato - dia seguinte. Sinto uma angústia, não se trata se um mau pressentimento, só coisa minha, angústias pessoais. É madrugada e choveu muito. Passo a noite meio que em claro. Meu pai vê que estou online no skype e me liga às duas da manhã, não era nada, só uma conversa boa, que até ajudou a acalmar meu coração. Ainda meio agitada, vou dormir. Acordo para descobrir a catástrofe que assolou a região serrana. Petrópolis, Teresópolis e Friburgo, não sei quantos mortos, muitos. Gente desabrigada. Terror total. Não consigo ver o noticiário inteiro, tudo é triste demais. Sinto que estamos totalmente desamparados.

Terceiro ato - ainda sobre a tragédia, ouço especialistas na TV dizerem que as chuvas e inundações são consequências diretas do desmatamento na Amazônia. O negócio tem nome: zona de convergência do atlântico. Vejo Dilma e Cabral falarem sobre sei lá o quê, eles falam de tudo menos de dar um jeito no desmatamento desenfreado. Para eles, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Não ouvem os especialistas. Há planos, inclusive, de fazer uma hidrelétrica na região norte. São exatamente como a madame tenebrosa do show da Amy - querem que todo mundo se dane, contanto que continuem a mamar na grande teta. Vejo meus amigos e outras pessoas da cidade e empresas e entidades se mobilizando para enviar alimentos, medicamentos e ajuda aos que sobreviveram. Call me old fashioned, podem me chamar de antiga: mas sou de tempo em que Nando Reis se atinha a cantar as próprias músicas ao invés de gravar - Muito Estranho - Dalton, que os governos deviam de fato cuidar da soberania e dos interesses da população de um país, e que chuvas de verão eram só chuvas de verão e não consequências de ganância e ignorância. Tenho inveja dos raçudos hermanos argentinos: por muito menos, vão para a rua e fazem um panelaço.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Um pouco mais de gentileza e natureza

O texto a seguir é da minha amiga Beatriz Diniz, jornalista que escreve regularmente seus pontuais Eco Lógicos - eu, gostei demais e decidi partilhar mais esse:

Taí o fim de mais um ano. O tempo passa, é a natureza da vida. E foi assim que criamos os calendários, observando as marcas naturais de passagem do tempo. Aprendemos a contar o tempo baseados nos ciclos do sol, da lua, das estações. Ciclicamente, vemos início, meio e fim de um dia, de um mês, de um ano. E o mais impressionante é que, naturalmente, fim se transforma em início. Equilíbrio. Harmonia.

Somos parte da generosa natureza, que nos oferece tudo que é necessário para mantermos a vida. Temos a natureza em nós, em nossos ciclos de nascimento, crescimento e amadurecimento. Temos a natureza em nós, na composição de nosso organismo, nos elementos que precisamos botar pra dentro a nos nutrir.

Mas, estranhamente, nos distanciamos da natureza. E seguimos nos relacionando cada vez mais com objetos materiais, produzidos custe o que custar: esgotamento de recursos naturais, extinção de espécies, poluição, desmatamento...

Tictactictactictac... Num pequeno espaço de tempo você tem o poder de se aproximar da natureza, é o instante de cada decisão cotidiana, pessoal e profissional. Toda hora é momento de escolha. Use bem seu livre arbítrio. Preserve sua boa natureza. Não se desperdice. Recicle seu comportamento. Reaproveite o que há de melhor em você. Aumente suas emissões de boa vontade.

Somos o presente mais valioso, que dinheiro algum compra ou vende. Temos em nós os mais preciosos presentes.

Eco Lógico Sustentabilidade dá boas vindas a 2011, com o desejo de sermos mais naturais. Alegria. Alegria. Alegria. Abençoado seja mais um ano em nossas vidas. Que façamos com que seja de Paz, Renovação e Realizações Sublimes...

http://www.youtube.com/beatrizdinizjp


a generosa mangueira da casa do meu pai.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Pacto - um poema à moda antiga

O dia em que contares teus segredos
e teus sonhos
- ou que eles saiam de ti sem que percebas -
Quando me deres um pedaço da tu´alma
para que eu dela cuide, e seja,
ao mesmo tempo, lavrador e passarinho,
Então, em ti confiarei.
Agradecida, em troca,
darei parte de mim para que cuides.
E, lavanda calma,
Esperarei pelos girassóis do teu plantio,
Para deles me aproximar,
depois me apaixonar.
Sabendo que, voláteis, giram para o sol...
A dançar com eles seguirei o caminho
Ora para o nascente, ora para o poente
Como companheira, Vênus, espelho fiel
de ti nunca longe!
Planta na minh´alma tua vida,
E através de ti e da tua dança
descobrirei o eu.
As vezes tão junto que não possa me ver,
Outras vezes mais longe, pra te convencer,
no foco da distância, serei só eu.
E tu, lavrador e passarinho.
Seguiremos firmes. (filmes)
Flexíveis.
Sonhos de nós dois.
No meio, ainda, espaço que nunca finda,
alecrim, sálvia e calêndula,
talvez outros ramos, silvestres,
as daninhas, os sem-cuidados...
Alegria, sabedoria,
desejo, um outro lampejo,
caminho de renovação
levando o sol pr´onde nunca nunca havia.

esse poema é meu mesmo...

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Sonhos para Vestir (e ouvir)

Sonhos para vestir é o nome da peça em cartaz até a semana que vem no SESC Copacabana que fui assistir no último sábado. O roteiro é de autoria da atriz Sara Antunes, a direção é de Vera Holtz e o cenário é da minha querida amiga talentosíssima atriz e artista plástica (garota que que pinta e borda), Analu Prestes. Como o nome da peça sugere, a presença dos sonhos marca todo o espetáculo, tudo muito bem pontuado por um acordeon e um piano.

Desse coletivo que os sonhos abarcam, vamos sendo envolvidos numa atmosfera íntima e pessoal, provocando lembranças, questionamentos e aguçando sentimentos. A peça é linda! Me fez pensar em entes queridos, sentir saudades e querer sonhar.

Palavras em águas profundas são revolvidas com bordados e muita delicadeza. Depois descubro pra que outro teatro vão as fabulosas e conto procês. É um tem-que-ver!




...

Dias depois, deparei com outra mídia sobre o universo onírico, o curta de Kahlil Joseph, entitulado Jung at Heart, um filme que na verdade é o segundo de dois curtas feitos para registrar as músicas, novos trabalhos, de Seu Jorge e Almaz. São dois filminhos, Marcello no Limbo e o meu favorito, Oxum e o Sonho, que está aqui abaixo. Uma nova linguagem para o clip, onde a música está inserida como pano de fundo de uma narrativa. Outra linda costura! Vale ler a entrevista que Kahlil Joseph deu ao NOWNESS, muito boa!

Em sua obra analítica e pesquisa do inconsciente, C.G. Jung descreve a importâcia de sonhos onde ocorre o encontro com um Orixá (ou um deus de qualquer outra mitologia). Orixás, afinal, são entidades da mitologia Iorubá, com seus símbolos, domínios e forças específicas. O sonho com Oxum fala do encontro interno com a mãe primordial das águas doces. A sedução, o acalanto e mistério do feminino das águas que podemos beber - mais águas!- para suprir a vida com maior doçura e carinho. São sonhos arquetípicos, ou seja, sonhos que todos temos, já tivemos e voltaremos a ter, com diferentes deuses, em diferentes momentos da vida.
















sábado, 11 de dezembro de 2010

Poema de família

Hoje, conversando com meu pai, ele citou uns versos de um poema de Rudyard Kipling, que meu avô, pai dele, deu para ele ler quando tinha 15 anos. Qual não foi a surpresa do meu pai ao constatar que eu não sabia dessa história, sequer conhecia o poema...
Como rege a sincronicidade, chegou em muito boa hora. Histórias e poemas, passados de geração em geração, vão criando assim uma estrutura dorsal para a família (ou a tribo).
Vamos a ele:

Se

Se és capaz de manter tua calma,
quando,
todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti quando estão todos duvidando,

e para esses no entanto achar uma desculpa.

Se és capaz de esperar sem te desesperares,

ou, enganado, não mentir ao mentiroso,

Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,

e não parecer bom demais, nem pretensioso;


Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires,

de sonhar - sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires,

tratar da mesma forma a esses dois impostores.
Se és capaz de sofrer a dor de ver
mudadas,
em armadilhas as verdades que disseste

E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,

e refazê-las com o bem pouco que te reste;


Se és capaz de arriscar numa única parada,

tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.

E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,

resignado, tornar ao ponto de partida.
De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
a dar seja o que for que neles ainda existe.

E a persistir assim quando, exausto, contudo
resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,

e, entre Reis, não perder a naturalidade.

E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,

se a todos podes ser de alguma utilidade.

Se és capaz de dar, segundo por segundo,

ao minuto fatal todo valor e brilho.
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,

e - o que ainda é muito mais - és um Homem, meu filho!


(Tradução de Guilherme de Almeida do poema If)

Adorei!Page Decoration - illustration by Rudyard Kipling (1865-1936) 1926

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Do amor e seus caminhos

trechos que escolhi do O Guardador de Rebanhos, do meu queridíssimo Fernando Pessoa, que, gênio, sabia tudo:

08/03/1914

II
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do mundo…
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender…
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar…
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar…

XXI
Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento…
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural…
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva…
O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica…
Assim é e assim seja…

13/03/1914
XXXVIII
Bendito seja o mesmo sol de outras terras
Que faz meus irmãos todos os homens
Porque todos os homens, um momento no dia, o olham como eu,
E nesse puro momento
Todo limpo e sensível
Regressam lacrimosamente
E com um suspiro que mal sentem
Ao homem verdadeiro e primitivo
Que via o Sol nascer e ainda o não adorava.
Porque isso é natural — mais natural
Que adorar o ouro e Deus
E a arte e a moral…

07/05/1914
XLIII

Antes o voo da ave, que passa e não deixa rasto,
Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde já não está e por isso de nada serve,
Mostra que já esteve, o que não serve para nada.
A recordação é uma traição à Natureza,
Porque a Natureza de ontem não é Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.
Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!


Arcana of the Red Jester (Tarot Deck by Beth Seilonen).

sábado, 27 de novembro de 2010

Lágrimas para que?

Sou da teoria de que rir é o melhor remédio. Para quem não concorda, basta dar um google no nome do doutor indiano Madan Kataria, fundador do Clube do Riso, uma espécie de yoga calcada simplesmente no rir até gargalhar sem parar como forma de bem-estar e exercício.

No entanto, há fases e situações na vida em que choramos muito. Atendi, nas últimas semanas, duas pessoas, ambas com trânsitos de Netuno, que se queixaram do quanto estavam chorando ultimamente, às vezes até sem saber muito bem o motivo. Trânsitos de Netuno são mesmo sensibilizadores, podemos ter a impressão de estar sendo "engolidos pelas águas", e choramos mais que o que normalmente costumávamos chorar. Netuno atua como um dissolutor de bloqueios e defesas. Choramos antigas mágoas que nem sabíamos existir, choramos as dores do mundo, somos lavados. E a sensação é de tristeza, fragilidade e estranheza.

Lendo Mulheres que Correm com os Lobos, livro da autora junguiana Clarissa Pinkola Estés, deparei-me com um trecho maravilhoso sobre a função do choro no psiquismo. Daí resolvi transcrevê-lo (pág 499):
"As lágrimas, na mitologia, derretem o coração enregelado. Na história "A Criança de Pedra" do povo inuit, as lágrimas mornas de um menino fazem com que uma pedra fria se quebre, liberando um espírito protetor. Na história de "Mary Culhane", o demônio que se apoderou de Mary não pode entrar em nenhuma casa onde haja lágrimas derramadas com sinceridade pois essas ele considera "água benta". Desde o início da história, as lágrimas cumpriram três funções: chamaram os espíritos para o lado de quem chora, afastaram os que queriam abafar e amarrar a alma pura e curaram os males decorrentes dos pactos infelizes.
Há épocas na vida de uma mulher em que ela chora e não consegue parar de chorar, e mesmo que tenha o auxílio e o apoio dos seres amados, ainda assim ela chora. Algo nesse pranto mantém o predador afastado, mantém longe a vantagem ou o desejo mórbido que irá destruí-la. As lágrimas fazem parte do conserto de rasgos na psique pelos quais a energia vinha vindo vazando sem parar. A questão é séria mas o pior não ocorre - nossa luz não é roubada - porque as lágrimas nos tornam conscientes. Não há a menor chance de se voltar a adormecer quando se está chorando. O sono que nos chega nessas circunstâncias é apenas repouso para o corpo físico.
Às vezes a mulher diz: "não aguento mais chorar, estou cansada, quero parar com isso." No entanto é a sua alma que está gerando as lágrimas, e elas são a sua proteção. Por isso, ela precisa continuar até a hora que acabe essa necessidade."

O trecho descreve perfeitamente o descongelamento que ocorre na psique depois de um período de "adormecimento da alma", onde estivemos anestesiadas e desconectadas do feminino profundo, agindo como zumbis ou robôs. Na desconexão, queremos agradar, mesmo que isso esteja nos destruindo interiormente. O choro lava, limpa, descongela e acaba por reconectar a pessoa de volta ao seu caminho.

Ilustração de Jana Vulkovic - Crying Girl

sábado, 13 de novembro de 2010

Argila Real Brasileira

O Brasil não é só verde anil e amarelo, o Brasil também é cor de rosa e carvão.

Esse é um verso de Carlinhos Brown. Músico, brasileiro, baiano, negão, com dreadlocks de rasta. Obra incrível, composta de música, letra e alma.

Quem pensa que Carlinhos Brown é um negão do Pelourinho que bate tambor e casou com a filha do Chico Buarque, tá errado não, mas pensar que ele é só isso? Precisa rever os conceitos: visão limitada, bitolada, preconceituosa, e porque não dizer, muito racista. Um racismo velado e oculto, que teima em imperar no país onde "ninguém é racista", o tal que não é só verde, anil e amarelo.

Um monte dessa gente, que diz que não gosta do Brown, adora e canta as músicas dele, sem saber, as gravadas por Marisa Monte e Caetano Veloso. Mas bóra falar na grandeza da obra desse compositor, também poeta, daqueles que escrevem torto e fundo. Tô louca para ter o novo cd, Diminuto, pra poder sorver cada pedacinho com atenção e cuidado. Pode pegar um cd qualquer do Brown e escutar os arranjos das músicas, a combinação de orquetra com percussão, as delicadas misturas que ele faz. Há canções de leveza ímpar. Há anos estudo Carlinhos Brown, ouço suas músicas e escrevo num caderno as letras que ele compõe. Poeta de primeira. São versos de diferentes canções do Carlinhos Brown:

No colo do firmamento
Vivo
No andar da mão
Há flores quando o jarro é a esperança
Sei de moças espinhos
Olha já
I love e you?
Não segue de longe (serve)
Para perto do peito vem
Teu ar me arde
Vives na lembrança sol a pino
I'm falling in love
(em Hawaii e You)

Na boa viagem
que salva a saudade,
tu fazes tour no meu pensamento
Vou na bagagem onde vai teu perfume
e não sabes tu o que sinto por dentro.
(em Tour)

Solidão
A vida nos fez
Apesar de ter
Solidão
Não sei pisar no breque
Tomo charrete
Pros lares de rubis
Pensando nisso
Pensando nisso
Senti felicidade sem fim
Se for passar precisos sarar
É quase inútil
Ficar de ir
Ficar de vir
Ficar feliz isso sim
(em Mares de ti)

Com o coração cansado de sofrer
Juras jurei
Jurei que jamais
Ia por nada chorar
Fui promessa de samba melancolia
Jurei te amar
Na saúde na doença e na dor
É bom cumprir as juras de amor
(em Juras de Samba)

Não se acaba a opressão
Sem mudar o coração
Não há lixo lá do céu
Quem jogou você ao léo
Se jurei errei
Há um vírus só nosso
Quero mais um bem
Mas a dor é um negócio
Todos querem amar mais a vida de mortais
Míssil miscigenação cura o mundo de ilusão
(em Alá a A)

Flores que ofertamos
e que nunca morrerão
em vasos e jarros se bronzeiam
Os anjos de onde vem
sua vida
bem-vinda
a trilha
Os livros não são sinceros
Quem tem Deus como império
No mundo não está sozinho
Ouvindo sininhos
(em Magamalabares)

Por favor, ouça antes de criticar! Argila)


quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Ventanias

Continuar esperar
esperança entrar,
se escolho ou se tenho,
sem saber empenho.

Cada uma
deixando nascer,
Não irá abortar
com medo de crescer.

Comum então será o dia,
em que loucas ventanias
olhar-se-ão,
reconhecendo teores,abraçando dimensões.

São dimensões urbanas
essas a que me jogo.

Às vezes danço sozinha,
como na panela,
não tenho nome,
às vezes ando distraída.



foto: Maria Cardim, Corumbau, 2010

Ainda do mesmo livro:

Outubro

O que tenho para falar
acontece.
Percebe-se olhando
o que entra,
envolve e passa,
acontece.

A lua nova de outubro
passando estremece e...
vai, continua empurrando,
envelhece e vive.

Viver é envelhecer,
viver envelhece.

Ventanias e Outubro são poemas de Solange Casotti, do livro Ventanias, Sete Letras, 1997.