domingo, 16 de janeiro de 2011

Tragédia em 3 atos

Primeiro ato - estou no show da Amy Winehouse, setor cadeiras 1, fico todo o tempo anterior ao show com a minha amiga em pé em um lugar super ultra estratégico, onde não atrapalhávamos a visão de ninguém e ninguém a nossa. O show começa. Amy está ótima, tudo de bom! De repente aparece uma quarentona e suas duas filhas adolescentes, uma com uns 16, a outra com uns 12. Na maior cara de pau, a perua se prostra na minha frente e incentiva as filhinhas lendeas a ficarem na frente da minha amiga. Com toda a educação, toco gentilmente no ombro da folgada e digo: "dá pra vocês chegarem um pouquinho para o lado? Vocês estão na nossa frente..." Ao que a bruaca retruca secamente: "Não! Tô afim de ficar aqui mesmo!". Primeiro, fantasiei sobre empurrá-la escada abaixo, numa mistura de dia de fúria com a noiva de chuck. Depois, olhei com uma calma ártica para sua bolsinha de corrente dourada, Chanel falsa, e para seu iphone (ela filmava o show ao invés de assistir e curtir) e senti profunda repulsa por ela, por sua sua noção de grande importância e esperteza e pela educação(?) e exemplo que estava dando às filhas. Com garra, apelei para o divino e evoquei o Exu-tira-essa-gentalha-daqui-já, uma entidade que inventei, mas a qual respeito profundamente, porque, com Exu, inventado ou não, você sabe, não se brinca. A intrusa pode não ter obedecido a mim, ou às normas da boa vizinhança, mas à Ele, ela obedeceu. Ah se não obedeceu... E foram elas com suas chanelzinhas da china, iphones e blackberries se chegando para o lado e nossa visão glamurosa de Amy voltou a reinar.

Segundo ato - dia seguinte. Sinto uma angústia, não se trata se um mau pressentimento, só coisa minha, angústias pessoais. É madrugada e choveu muito. Passo a noite meio que em claro. Meu pai vê que estou online no skype e me liga às duas da manhã, não era nada, só uma conversa boa, que até ajudou a acalmar meu coração. Ainda meio agitada, vou dormir. Acordo para descobrir a catástrofe que assolou a região serrana. Petrópolis, Teresópolis e Friburgo, não sei quantos mortos, muitos. Gente desabrigada. Terror total. Não consigo ver o noticiário inteiro, tudo é triste demais. Sinto que estamos totalmente desamparados.

Terceiro ato - ainda sobre a tragédia, ouço especialistas na TV dizerem que as chuvas e inundações são consequências diretas do desmatamento na Amazônia. O negócio tem nome: zona de convergência do atlântico. Vejo Dilma e Cabral falarem sobre sei lá o quê, eles falam de tudo menos de dar um jeito no desmatamento desenfreado. Para eles, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Não ouvem os especialistas. Há planos, inclusive, de fazer uma hidrelétrica na região norte. São exatamente como a madame tenebrosa do show da Amy - querem que todo mundo se dane, contanto que continuem a mamar na grande teta. Vejo meus amigos e outras pessoas da cidade e empresas e entidades se mobilizando para enviar alimentos, medicamentos e ajuda aos que sobreviveram. Call me old fashioned, podem me chamar de antiga: mas sou de tempo em que Nando Reis se atinha a cantar as próprias músicas ao invés de gravar - Muito Estranho - Dalton, que os governos deviam de fato cuidar da soberania e dos interesses da população de um país, e que chuvas de verão eram só chuvas de verão e não consequências de ganância e ignorância. Tenho inveja dos raçudos hermanos argentinos: por muito menos, vão para a rua e fazem um panelaço.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Um pouco mais de gentileza e natureza

O texto a seguir é da minha amiga Beatriz Diniz, jornalista que escreve regularmente seus pontuais Eco Lógicos - eu, gostei demais e decidi partilhar mais esse:

Taí o fim de mais um ano. O tempo passa, é a natureza da vida. E foi assim que criamos os calendários, observando as marcas naturais de passagem do tempo. Aprendemos a contar o tempo baseados nos ciclos do sol, da lua, das estações. Ciclicamente, vemos início, meio e fim de um dia, de um mês, de um ano. E o mais impressionante é que, naturalmente, fim se transforma em início. Equilíbrio. Harmonia.

Somos parte da generosa natureza, que nos oferece tudo que é necessário para mantermos a vida. Temos a natureza em nós, em nossos ciclos de nascimento, crescimento e amadurecimento. Temos a natureza em nós, na composição de nosso organismo, nos elementos que precisamos botar pra dentro a nos nutrir.

Mas, estranhamente, nos distanciamos da natureza. E seguimos nos relacionando cada vez mais com objetos materiais, produzidos custe o que custar: esgotamento de recursos naturais, extinção de espécies, poluição, desmatamento...

Tictactictactictac... Num pequeno espaço de tempo você tem o poder de se aproximar da natureza, é o instante de cada decisão cotidiana, pessoal e profissional. Toda hora é momento de escolha. Use bem seu livre arbítrio. Preserve sua boa natureza. Não se desperdice. Recicle seu comportamento. Reaproveite o que há de melhor em você. Aumente suas emissões de boa vontade.

Somos o presente mais valioso, que dinheiro algum compra ou vende. Temos em nós os mais preciosos presentes.

Eco Lógico Sustentabilidade dá boas vindas a 2011, com o desejo de sermos mais naturais. Alegria. Alegria. Alegria. Abençoado seja mais um ano em nossas vidas. Que façamos com que seja de Paz, Renovação e Realizações Sublimes...

http://www.youtube.com/beatrizdinizjp


a generosa mangueira da casa do meu pai.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Pacto - um poema à moda antiga

O dia em que contares teus segredos
e teus sonhos
- ou que eles saiam de ti sem que percebas -
Quando me deres um pedaço da tu´alma
para que eu dela cuide, e seja,
ao mesmo tempo, lavrador e passarinho,
Então, em ti confiarei.
Agradecida, em troca,
darei parte de mim para que cuides.
E, lavanda calma,
Esperarei pelos girassóis do teu plantio,
Para deles me aproximar,
depois me apaixonar.
Sabendo que, voláteis, giram para o sol...
A dançar com eles seguirei o caminho
Ora para o nascente, ora para o poente
Como companheira, Vênus, espelho fiel
de ti nunca longe!
Planta na minh´alma tua vida,
E através de ti e da tua dança
descobrirei o eu.
As vezes tão junto que não possa me ver,
Outras vezes mais longe, pra te convencer,
no foco da distância, serei só eu.
E tu, lavrador e passarinho.
Seguiremos firmes. (filmes)
Flexíveis.
Sonhos de nós dois.
No meio, ainda, espaço que nunca finda,
alecrim, sálvia e calêndula,
talvez outros ramos, silvestres,
as daninhas, os sem-cuidados...
Alegria, sabedoria,
desejo, um outro lampejo,
caminho de renovação
levando o sol pr´onde nunca nunca havia.

esse poema é meu mesmo...

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Sonhos para Vestir (e ouvir)

Sonhos para vestir é o nome da peça em cartaz até a semana que vem no SESC Copacabana que fui assistir no último sábado. O roteiro é de autoria da atriz Sara Antunes, a direção é de Vera Holtz e o cenário é da minha querida amiga talentosíssima atriz e artista plástica (garota que que pinta e borda), Analu Prestes. Como o nome da peça sugere, a presença dos sonhos marca todo o espetáculo, tudo muito bem pontuado por um acordeon e um piano.

Desse coletivo que os sonhos abarcam, vamos sendo envolvidos numa atmosfera íntima e pessoal, provocando lembranças, questionamentos e aguçando sentimentos. A peça é linda! Me fez pensar em entes queridos, sentir saudades e querer sonhar.

Palavras em águas profundas são revolvidas com bordados e muita delicadeza. Depois descubro pra que outro teatro vão as fabulosas e conto procês. É um tem-que-ver!




...

Dias depois, deparei com outra mídia sobre o universo onírico, o curta de Kahlil Joseph, entitulado Jung at Heart, um filme que na verdade é o segundo de dois curtas feitos para registrar as músicas, novos trabalhos, de Seu Jorge e Almaz. São dois filminhos, Marcello no Limbo e o meu favorito, Oxum e o Sonho, que está aqui abaixo. Uma nova linguagem para o clip, onde a música está inserida como pano de fundo de uma narrativa. Outra linda costura! Vale ler a entrevista que Kahlil Joseph deu ao NOWNESS, muito boa!

Em sua obra analítica e pesquisa do inconsciente, C.G. Jung descreve a importâcia de sonhos onde ocorre o encontro com um Orixá (ou um deus de qualquer outra mitologia). Orixás, afinal, são entidades da mitologia Iorubá, com seus símbolos, domínios e forças específicas. O sonho com Oxum fala do encontro interno com a mãe primordial das águas doces. A sedução, o acalanto e mistério do feminino das águas que podemos beber - mais águas!- para suprir a vida com maior doçura e carinho. São sonhos arquetípicos, ou seja, sonhos que todos temos, já tivemos e voltaremos a ter, com diferentes deuses, em diferentes momentos da vida.
















sábado, 11 de dezembro de 2010

Poema de família

Hoje, conversando com meu pai, ele citou uns versos de um poema de Rudyard Kipling, que meu avô, pai dele, deu para ele ler quando tinha 15 anos. Qual não foi a surpresa do meu pai ao constatar que eu não sabia dessa história, sequer conhecia o poema...
Como rege a sincronicidade, chegou em muito boa hora. Histórias e poemas, passados de geração em geração, vão criando assim uma estrutura dorsal para a família (ou a tribo).
Vamos a ele:

Se

Se és capaz de manter tua calma,
quando,
todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti quando estão todos duvidando,

e para esses no entanto achar uma desculpa.

Se és capaz de esperar sem te desesperares,

ou, enganado, não mentir ao mentiroso,

Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,

e não parecer bom demais, nem pretensioso;


Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires,

de sonhar - sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires,

tratar da mesma forma a esses dois impostores.
Se és capaz de sofrer a dor de ver
mudadas,
em armadilhas as verdades que disseste

E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,

e refazê-las com o bem pouco que te reste;


Se és capaz de arriscar numa única parada,

tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.

E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,

resignado, tornar ao ponto de partida.
De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
a dar seja o que for que neles ainda existe.

E a persistir assim quando, exausto, contudo
resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,

e, entre Reis, não perder a naturalidade.

E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,

se a todos podes ser de alguma utilidade.

Se és capaz de dar, segundo por segundo,

ao minuto fatal todo valor e brilho.
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,

e - o que ainda é muito mais - és um Homem, meu filho!


(Tradução de Guilherme de Almeida do poema If)

Adorei!Page Decoration - illustration by Rudyard Kipling (1865-1936) 1926

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Do amor e seus caminhos

trechos que escolhi do O Guardador de Rebanhos, do meu queridíssimo Fernando Pessoa, que, gênio, sabia tudo:

08/03/1914

II
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do mundo…
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender…
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar…
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar…

XXI
Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento…
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural…
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva…
O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica…
Assim é e assim seja…

13/03/1914
XXXVIII
Bendito seja o mesmo sol de outras terras
Que faz meus irmãos todos os homens
Porque todos os homens, um momento no dia, o olham como eu,
E nesse puro momento
Todo limpo e sensível
Regressam lacrimosamente
E com um suspiro que mal sentem
Ao homem verdadeiro e primitivo
Que via o Sol nascer e ainda o não adorava.
Porque isso é natural — mais natural
Que adorar o ouro e Deus
E a arte e a moral…

07/05/1914
XLIII

Antes o voo da ave, que passa e não deixa rasto,
Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde já não está e por isso de nada serve,
Mostra que já esteve, o que não serve para nada.
A recordação é uma traição à Natureza,
Porque a Natureza de ontem não é Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.
Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!


Arcana of the Red Jester (Tarot Deck by Beth Seilonen).

sábado, 27 de novembro de 2010

Lágrimas para que?

Sou da teoria de que rir é o melhor remédio. Para quem não concorda, basta dar um google no nome do doutor indiano Madan Kataria, fundador do Clube do Riso, uma espécie de yoga calcada simplesmente no rir até gargalhar sem parar como forma de bem-estar e exercício.

No entanto, há fases e situações na vida em que choramos muito. Atendi, nas últimas semanas, duas pessoas, ambas com trânsitos de Netuno, que se queixaram do quanto estavam chorando ultimamente, às vezes até sem saber muito bem o motivo. Trânsitos de Netuno são mesmo sensibilizadores, podemos ter a impressão de estar sendo "engolidos pelas águas", e choramos mais que o que normalmente costumávamos chorar. Netuno atua como um dissolutor de bloqueios e defesas. Choramos antigas mágoas que nem sabíamos existir, choramos as dores do mundo, somos lavados. E a sensação é de tristeza, fragilidade e estranheza.

Lendo Mulheres que Correm com os Lobos, livro da autora junguiana Clarissa Pinkola Estés, deparei-me com um trecho maravilhoso sobre a função do choro no psiquismo. Daí resolvi transcrevê-lo (pág 499):
"As lágrimas, na mitologia, derretem o coração enregelado. Na história "A Criança de Pedra" do povo inuit, as lágrimas mornas de um menino fazem com que uma pedra fria se quebre, liberando um espírito protetor. Na história de "Mary Culhane", o demônio que se apoderou de Mary não pode entrar em nenhuma casa onde haja lágrimas derramadas com sinceridade pois essas ele considera "água benta". Desde o início da história, as lágrimas cumpriram três funções: chamaram os espíritos para o lado de quem chora, afastaram os que queriam abafar e amarrar a alma pura e curaram os males decorrentes dos pactos infelizes.
Há épocas na vida de uma mulher em que ela chora e não consegue parar de chorar, e mesmo que tenha o auxílio e o apoio dos seres amados, ainda assim ela chora. Algo nesse pranto mantém o predador afastado, mantém longe a vantagem ou o desejo mórbido que irá destruí-la. As lágrimas fazem parte do conserto de rasgos na psique pelos quais a energia vinha vindo vazando sem parar. A questão é séria mas o pior não ocorre - nossa luz não é roubada - porque as lágrimas nos tornam conscientes. Não há a menor chance de se voltar a adormecer quando se está chorando. O sono que nos chega nessas circunstâncias é apenas repouso para o corpo físico.
Às vezes a mulher diz: "não aguento mais chorar, estou cansada, quero parar com isso." No entanto é a sua alma que está gerando as lágrimas, e elas são a sua proteção. Por isso, ela precisa continuar até a hora que acabe essa necessidade."

O trecho descreve perfeitamente o descongelamento que ocorre na psique depois de um período de "adormecimento da alma", onde estivemos anestesiadas e desconectadas do feminino profundo, agindo como zumbis ou robôs. Na desconexão, queremos agradar, mesmo que isso esteja nos destruindo interiormente. O choro lava, limpa, descongela e acaba por reconectar a pessoa de volta ao seu caminho.

Ilustração de Jana Vulkovic - Crying Girl