Mandava o Brasil mostrar a cara e pedia ao senhor que desse grandeza e coragem aos de alma pequena. Exagerado, carente profissional, o maior abandonado só queria te ganhar num salto mortal de iniciante. Adorava um amor inventado, inventava pra se distrair e queria ter uma bomba, um flite paralisante qualquer, pra tranformar o tédio em melodia.
Disparava, forte, sua metralhadora de mágoas, nadando contra a corrente, só pra exercitar, o que não podia causar mal nenhum. Sabia que seu caminho nesse mundo teria um brilho incerto e louco. Cazuza nunca quis pouco, queria mudar o mundo com milhares de metáforas rimadas e segredos de liquidificador. E não se importava que mil raios partissem qualquer sentido vago de razão. Cazuza entrava em todas, sem sair do tom.
Sabia que bastava um segundo pra aprender a amá-lo e precisava dizer que amava, contando casos, besteiras, promessas malucas tão curtas quanto um sonho bom. E quem teve coragem de ouvir, amanheceu o pensamento. Pediu a saideira, achando que era brincadeira, que ninguém iria reparar. Saiu dessa vida louca vida, vida breve, pegou um trem pras estrelas e só deixou pra mim um bilhetinho azul que dizia: viver é bom, nas curvas da estrada, solidão, que nada!

foto 1988, jornal O Globo
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